Sexta-feira, Outubro 29
Mundos de cores apagadas
Algumha vez o tenho pensado. Escrever desde um lugar mais externo a mim. Olhar-me um bocado desde fóra, forçar a máquina, escrever essa parte de mim feita de aparcadoiro e de hospital, de aceiro e luz branca. (Essa parte que me leva às camas das mulheres maduras que agardam nos semáforos). Fixar essas correntes na escrita e olhar essa minha insánia desde fóra. Inventar, jogar com coitelas, lançar pedras que fam parte do meu arsenal, falar dum sexo cru e frio que também é anaco de meu, olhar-me de esguelho e com barba de cinco dias, experimentar até onde me sinto cómodo.
Encontro nos últimos tempos, neste blogomilho lugares coma esse que tenho pensado em construir.
Mundos de cores apagadas nos que reconheço umha forma que lembra a mim ao olhar nas impolutas baldosas brancas do banho, lugares que acolhem reflexos grises e frios de mim nas liscas de espelho que ficam ciscadas polo chao. Iluminado cumha luz fria.
posted by Sao Tomé 19:45
Quinta-feira, Outubro 28
...E os nenos
Olha lá. Que nunca lhes prestei atençom, nunca os entendim, nunca me interessárom especialmente, sempre me impugérom um certo respeito embora estou convencido de os comprender. -Quiçais me semelhem algo grande mais, algo que chama de mais à responsabilidade por como podem chegar a ser depois-.
Nom sei. E a questom é que nos últimos tempos, por conversas e rumores ¿nem todos contáveis-, por circunstáncias mais ou menos profissionais, mais ou menos fondamente pessoais, vejo-me asomado por várias fiestras pequenas a esse misterioso mundo dos nenos. E olha lá que há quem me fai ver todo o humor e a razom que contém, e como som as cousas e os procesos e a evoluçom e a quê idade se desenvolve o movimento de boneca que permite manexar o rato. E vejo-me escrevendo cousas que ham ler nenos, involucrado mais ainda em projectos que lhes tocam.
Aprendo em fim. Asusto-me um bocado. Vou-nos vendo quiçais coma algo mais natural. E boa falha fará acostumar-se, que nom ham tardar muitos anos em aparecer nas vidas da gente mais achegada, e tardam bem em marchar. Seguimos medrando nós também.
posted by Sao Tomé 20:45
(Acotaçom: Afectividade em cinco segundos)
< Volto para a casa cargado com a compra. No meio da rua molhada vejo ao Luigi ¿que veu ontem a Trapobana por primeira vez-, que já de longe fai acenos de saudo, e pequenas reverências coma nos saudos de artes marciais e quando chega à minha altura e eu já estou a parar, aperta-me com todos os meus vultos, dá-me duas palavras nas costas e di-me
- Já está. Toda a afectividade que poderia haver numha conversa de cinco minutos concentrada numha aperta de cinco segundos.
- Pois tes boa razom. -E continuamos caminho. -Ao melhor passo-vos por casa à noite -digo-lhe já a nos afastar.
E nom, nom lhe falta razom ao rapaz. Bem vindo a Trapobana, por certo. >
posted by Sao Tomé 20:35
Quarta-feira, Outubro 27
E nom irei
Tinha eu boa gana de fazer a aventura. Baixar ao Porto e ir à festa aquela que Margarida comentara. Mas olha lá que é hoje ainda quando sei como é a cousa finalmente, com este flyer que me envia a menina.
Mas já nom é tempo, já há planos, já há compromisos com outra gente. E por muito que me insista Laura em que é umha oportunidade, já passou o intre em que poderia pensar numha viagem lá. A vida continua a correr rápido, como bem se vê. Mágoa das cousas que se passam no caminho. Vemo-nos para outra, menina, a ver se anima a visitar Compostela. Eu subirei mais umha vez à Corunha, umha outra aventura que veremos em quê dá.
posted by Sao Tomé 20:13
Belém e a fenda
Combino por fim com Belém. A impresom é que o mês passou sem vê-la. É essa ausência também (onda a volta de Carmela, e de Sérgio, e a tua irrupçom, e por suposto essoutras ausências que deixades) a que marca mais essa fenda que se dá entre a minha vida actual e a de antes de outubro. Falta Belém também, as tardes de compras, os cafés, o pôr-se ao dia nas rexoubizes mais pequenas e o riso sinjelo na retranca. E essa dose desentido comum que me pom os problemas no seu sítio e me desvela a miudo umha visom das cousas mais chantada na terra.
Finalmente vejo-a. Corro a apertá-la como houvesse anos que nom nos viamos e digo-lhe exagerando que como mudou e quanto medrou desde a últma vez, e que está estupenda e que nom pode ser que nos vejamos tam pouco.
Afinal imos fazer recados, tomamos-lhe umha, damo-nos apertas, um agasalho com atrasso, sorrimos. Num jeito de pausa neste caminho acelerado que vai sendo outubro, lembra-me coa sua presença que continuamos também lá, na vida de sempre, num jeito de fidelidade a um mesmo e aos bons amigos de toda a vida.
E ainda bom.
posted by Sao Tomé 18:48
Terça-feira, Outubro 26
Estímulos
Visito um par de livrarias estes dias. Mais umha vez, a breve e rara estáncia tira de mim essa impresom generalizada que se me instalou na vida de que já nom amo os livros coma antes. Nessoutros mundos de papel, decato-me mais umha vez de para quê servem os cartos. Para mercar livros. E de quantas cousas gostava de ler.
Dum jeito semelhante o imenso solpor de ontem, um destes de quadro, com a sua total variedade de nuvens (cirros, estratos, cúmulos e tipos intermeios), com a sua luz total que nos venze e congela o mundo, olhado desde o autocarro, trae-me à superfície o neno que se extasiava coas paisagens, lembra-me que continuo lá dentro ainda para estas cousas.
(Dum jeito semelhante tira você de mim aspectos que estavam durmidos
para fóra).
posted by Sao Tomé 22:05
Sexta-feira, Outubro 22
Sol inédito e sorte gasta
Encontro ao sair da sesta este sol inédito. Custa cre-lo. Corro pola casa e abro as fiestras todas. A roupa, no entanto, continua húmida. Ponho Causas y Azares a todo volume (el azar se me viene enredando). Ainda nom me decido a saír, por se resulta que nom é certo.
Chega entom um SMS. Jandro.
Estivo por acô o companheiro um par de vezes estes dias, umha fim de semana de escapada com Rosa e ha dous dias sozinho para umha entrevista de trabalho. Afinal os seleccionadores optárom por botar às sortes para quem era o posto. E di o Jandro na mensagem: ¿a mim quedoume case toda a sorte num AX esnafrado¿. E tem boa razom, foi-lhes um cabelo ai atrás para ficar no meio da estrada. Bem gasta foi a sorte entom.
No SMS de resposta, com o eco das novas sobre a caida de Fidel (descanse un poquito, Señor Comandante), nom podo evitar dizer-lho: ¿Venceremos!¿
Que já vai tocando, cona, que já vai tocando. E a vós sobretudo.
(A tarde corre depois num sol que roça apenas às copas, que nos deixa cheios de luz e as ruas estám tam cheias de gente que me decato de que nom lembro já como se circulava em multidom e lá caminho até que canso e volto à cansa casa sabendo que ainda fica para voltar a ir de compras dignamente -sem ti- consciente dos olhos cansos e ainda do corpo que é o mesmo que o de onte que estava algo bébedo e se deitou tarde e já vam sendo muitos os dias também os dias sem ti).
posted by Sao Tomé 18:43
Nós e as palavras (música branca)
É estranha a nossa relaçom coas palavras.
Jogamos com elas, lançamo-las um para o outro, provocamo-nos letra a letra, verso a verso. Sem embargo, nom abondam para nos definir. Nom se ajeitam a estas distáncias, a estes alouminhos.
É entom neste certo silêncio feito de pele e de agarimos e de boa gana que te desejo/te estranho/te amo ou o que for. Que bem pode esta ser também umha história de música branca (que nom é exactamente amor) com o seu próprio ritmo e notas, e só pode definir-se ao contá-la aos beijos e às distáncias e as únicas palavras que se podem dizer sobre ela som estas que ficam mesmo dentro, as palavras que nos atiramos e coas que jogamos, coma nenos às batalhas e à vida, enquanto nom sobe a maré de pele e nos silência mais umha vez. Em música branca, quiçais.
posted by Sao Tomé 17:58
Quinta-feira, Outubro 21
Efeito da ausência
Por um intre, e só por um intre, penso se nom será tudo cousa de nom estardes. Olho a minha vida desde a perspectiva única da vossa ausência, e semelha que é essa a causa de tudo. Bebo de mais, fumo de mais, danço mais selvagem e berro mais alto. Ando mais com mulheres ou fago por andar. Escrevo de mais, ponho a música mais forte. Milito com maior ilusom, molho-me mais também na chuva e caminho pegando com mais força os pés contra o mundo.
Pergunto-me por um instante se nom é a minha vida -agora- reacçom à vossa falha. Se nom som todo eu -agora- efeito da ausência.
E, embora nom seja certo, nom deixa de ser também a verdade.
posted by Sao Tomé 18:15
Quarta-feira, Outubro 20
(Acotaçom: Chuva e apetências)
< Apetece entom ficar na casa.
Olhar fotografias alheias bem tiradas que nos fagam sonhar um bocado.
Ficar coberto na cama.
Masturbar-se de vagar (e mutuamente a poder ser).
Tomar café com leite. Beber mais tarde Porto.
Retomar os livros de sempre. Que assim sempre se volta às outras mil tardes semelhantes.
Tapar os olhos com as mantas também. Que nom chegue nunca o frio à olhada.
Olhar-te.
No meio das horas, parar e escrever umha lista.
Falar cos amigos velhos. Mesmo por telefone.
Percorrer mapas antigos.
Achar-te de menos.
Cozinhar para a companhia.
Que apareças pola porta (entre por essa porta agora, e diga que me adora)
Que se nos faga de noite, afinal.
Com isso tudo (ou só com alguns bocados disso tudo) consegue-se em geral umha sensaçom de morneza húmida
que muitos (eu incluido) nom duvidariam em chamar vida.
A chuva, elemento primordial já está cá. Aplique-se a lista. >
posted by Sao Tomé 18:10
Amor de bricolagem
Chegam as provisões. O meu pai achega-me à casa de volta a minha cadeira metálica de terraça, já soldada. Onda ela, trae-me um jamom inteiro, com o seu soporte para o cortar feito por el mesmo. E ainda os dous tarros de licor de guindas que envia a minha mae. E açúcar, e doze litros de leite, e coca cola e fanta... todo o que se lhes ocorreu meter da tenda para que nom me falte rem. Eu já lhe digera que nom tinha espaço para um jamom na casa. Que a cozinha é pequena. Que vivo sozinho, ainda que para comer sempre se pode contar com alguém. Que melhor que nom. E chamam da casa e anunciam-me que já o vem ai no carro com todo o cargamento.
Asusto-me um bocado. Há quinze dias ofertara-me, coma quem dá umha flor ou um jogete, o mando dumha bilha para o ponher na chave de passo do banho. É o seu jeito de amosar o carinho. Instala um enchufe, di-che que cómpre amanhar essa porta ou a cisterna, ilha as janelas, tapa umha fenda na parede. Pensa um jeito de melhorar o funcionamento que qualquer trebelho e de ali a quinze dias, quando tu já esqueceches, aparece el com aquela soluçom para o percheiro, co andel que apenas lhe comentaras.
Fico abrumado agora pensando que, dentro da sua leve insánia, o cargamento de hoje deve ser a maior mostra de carinho que me oferece desde há muitos, muitos anos. A ver quêm lhe di que nom, é claro.
Agora tenho um jamom a me ocupar a mesa da cozinha (ide passando companheiros, a ver quanto nos dura), e tenho que mudar as plantas e tirar boa parte da colecçom de botelhas de cerveja. E chove fóra e nom apeteze ir até o contentor.
E tenho a casa cheia das peças que componhem esta estranha mostra de amor á que nom soubem dizer que nom.
posted by Sao Tomé 17:50
Terça-feira, Outubro 19
Os dias da roupa enxoita
Em geral, levo a chuvia com indiferência. Gosto de entrar nas cafeterias na tarde, quando já é umha noite ceda, e encontrar lá o calor ambiental que se suma ao do encontro, e deixar os abrigos enchoupados nas cadeiras. Caminho sem guarda chuvas, com a pucha da parka sobre a cabeça, sentido-me desse jeito ridiculamente um bocado mais montaraz. Piso tranquilo as poças confiando nas minhas botas, gosto de levar jerseis grossos e em geral nom deixo de assubiar quando compre. Tampouco é que me recreie na chuva (agás nas tardes que saem feitas para parar na casa e olhar pola fiestra).
Reconheço sem embargo que podo já achar de menos as tardes um bocado mais longas, nas que ao tender a colada da lavadora decato-me (com a dor que dá lembrar umha cicatriz bem antiga) que já passou o tempo de secar doado a roupa, que já foi de novo lá.
(E é cousa de o reconhecer. Veu-nos enriba o inverno de socato. Do mesmo jeito que nos juntou na cama, pechou-nos nos bares a nós todos, levou-nos antes para a casa, deu-nos a tristura inevitável e complicou os panoramas -feitos apenas de horizonte antes e agora acugulados de lugares, citas, cadeiras sem arrumar-. Estamos a entrar nos abrigos, nos jerseis, nas botas, e nom nos encontramos ainda à vontade.
Fica a opçom única de buscar-se a pele que fica, sempre, por baixo do abrigo, e encontrar um oco no que pousar a mao, e a cabeça, e deixar-se ir.)
posted by Sao Tomé 18:07
Segunda-feira, Outubro 18
Peagem a cachos
Cae-me a casa aos anacos. Eu mesmo caim na rua o outro dia e esfolei ligeiramente um joenlho. O mesmo dia que os meus óculos decidiam tirar-se desde a mesinha de noite e escachar um dos cristais. Ainda depois veu o incidente da fechadura (chaves de mais para o mesmo buraco) que trouxo a casa um desses cerralheiros mágicos que exige solidom para trabalhar (nom lhe vaiamos colher o tranganilho a isso de abrir portas cumha targeta). E ainda a Jandro se lhe desmonta a cadeira na que está sentado no salom.
Agardo polo de agora que em qualquer intre se lhe queime algo ao computador, rachem um par de pratos, a lavadora nom volte centrifugar, os resortes da cama decidam por fim deixar o seu posto e disparar-se através da teia. Umha estranha sensaçom de estar a pagar peagens kármicas acompanha estes factos. E nom deixo entom de me sentir afortunado, a pesar do sono, da sensaçom estranha da gorja, das cousas por fazer, da distáncia, das declarações que metem medo e da incerteza toda que, coma sempre, acompanha a vida. Pago, ergue-se a barreira, e continuo.
posted by Sao Tomé 18:20
Sexta-feira, Outubro 15
(Acotaçom: o velho na figueira)
< Enquanto frego os pratos e se fai o jantar, olho pola fiestra as hortas de trás da casa. Aparece polo caminho o senhorio, que leva lá no peto os cartos que me cobrou agora mesmo polo alugueiro. Quando nom há ninguém mais arredor, coas hortas baleiras, o homem abandona o caminho e adentra-se no mato que leva tempo se cortar, e chega onda a figueira e olha para a árbore.
E lá, cos seus mais sesenta anos, ergue o garda chuvas e colhe com el o estremo dumha póla, e apalpa lá os figos, que já vai sendo tempo, e estarrica-se para apanhar os mais altos, e deixa que a póla colgue co peso do trebelho e aproveita amosando umha perícia que só dá a práctica.
E olha-o lá a colher mais figos e, já mais afastado do caminho, vira-se de costas à árbore e prova um.
De ali a nada volta ao caminho, bota o paraugas no ombreiro e segue a caminhar cum andar mais novo, semelha desde a minha fiestra que asubiasse e que fossse em realidade um velho mais novo, que rapina de quando em vez os figos nas leiras alheas a jeito de trasnada >
posted by Sao Tomé 19:39
Quinta-feira, Outubro 14
A casa fria
Olha lá. Quanto terá a ver contigo. A questom é que marchaches. Desde aquela tenho frio polas noites. Sumo capa tras capa ao nórdico, à manta, ponho camissolas por riba do pijama, durmo com peugos tentando recuperar aquel ponto de mornura que tinham as noites ao teu carom.
Mas nom há jeito. Esperto sempre com sensaçom de frio polos riles e o naris ameaçando com pingar, e a congelaçom do braço que ficou fóra do embrulho. Com o tempo a cousa só vai para pior. Esta noite prendeu-se sozinho o aquecimento, e saim do meu tobo de mantas a tremer, e tivem que queimar a pele coa ducha para dar reaccionado.
De seguir assim, temo que qualquer dia espertarei coa cabeça unicamente a emerger da neve, cos penguins a dançar polo salom e estalactitas de gelo pendendo sobre a minha cama.
Quanto terá a ver contigo.
posted by Sao Tomé 18:45
Logo do tempo (Outro olhar)
Tivo que passar aínda um bocado o tempo, houvo que agardar polo dia.
Eu sabia que estavam a apousentar as cousas, sentía-as na poeira que deixárom as sabas mas nom foi até o meio dia, quando voltava a casa coa barra de pam embaixo do braço,
que me invadiu esta sensaçom de solidez de madeira
pisando suave essa minha rua
que soubem que iam ficando estes dias contigo
incorporados a um.
Encontro-che assim no fundo desta olhada
também arbórea e cum fundo mais amável
que lhe tiro ao mundo
(Agochada ficas -sem que o saibam-
lá entre o iris e a menina,
segredo de outono.)
posted by Sao Tomé 01:41
Quarta-feira, Outubro 13
Feriados nos caminhos do céu
Sim, reconheço-o. Estivem de férias na casa. E, oes, parabéns aos que aproveitárom o (mau) tempo para saír por ai e ver sítios novos, a serio, aledo-me por eles.
Eu nom mudaría em absoluto o meu destino. Nos caminhos do céu.
(Without looking out of my window
I could know the ways of heaven).
No entanto, terá girado o mundo, terám nascido novos homens, terá-se movido mais o sapoconcho.
E que mais me tem, se estiveches ao meu carom.
posted by Sao Tomé 20:06
Sexta-feira, Outubro 8
Olhares (semiautomatismo)
Olha. Quero te ver. Embora nom o seja, a vida semelha ás vezes umha festa que se prolonga na madrugada, e olha lá, ai apareces no meio da noite e é cousa de te mirar que bem paga a pena -caralho- te olhar e tentar comprender algum anaco do mistério esse invisível que che outorga um aquel de brilho e um tanto de silêncio que bem sabes tu aproveitar em abrindo a boca e convocando tempestandes e supresas telúricas que bem sabes administrar e produzir e ponher em plusvalía. Olha. Quero ver-te. Porque me estás a espir a golpes de palavra, e fico assim no frio e colho catarro e nom debe de ser sam andar assim a te agardar, recem saído da ducha, cheio de sono e sem roupa para ponher num banho sujo e pequeno inteiramente branco numha manhá de outono inteiramente húmida que entra completa polo fachinelo e se apega aínda à pel.
E olha lá que pode semelhar que, ao ir frio, complicam-se as cousas e as ledízias tranquilas e mornas transformam-se às vezes em nostalgias imprevistas ou cousas polo estilo que, olha lá, semelham mais complexas e há que definí-las, ou cantá-las, celebrá-las ou escrebé-las, questom de olhar.
(No entanto:
Volto a casa.
Baixo as árbores descem
em dança
as primeiras folerpas pardas
vegetais.)
posted by Sao Tomé 21:32
Alouminhos
Há palavras que acarinham por dentro. Um bocado para além de onde chega o licor, quase à altura dum beijo ou de boas apertas.
Descobro ultimamente o poder que tes de pronunciar e de escrever os feitiços que mais me tocam na mornura. Como se de toda a vida me soubesses os lares mais sensíveis e puidesses me apertar vísceras à vontade, electrizar-me anacos da pele ou turrar-me pola memória para onde quigeres.
É deste jeito que consegues que só se poida querer-te.
(E quê bom e quê incrível é
saberes fazer o mesmo
também sem palavras
-a pele pura-)
posted by Sao Tomé 02:53
Quinta-feira, Outubro 7
Essa estranha ledízia
Nom tenho resaca (inexplicável). Durmo de menos é nom é problema. Queimo os olhos diante do computador. Tenho a cabeça a mil cousas (ainda bom que também set on you). Mas enquanto paro na casa atrono a rua e os vezinhos com ritmos horteras e pop. Comprovo mais umha vez como Rescue Me adquire cada vez mais dimensões de hino. Recupero Fangoria, Cien Gaviotas, danço coma tolo no corredor e tenho gana de seguir. Saio à rua ainda a assuviar os Jackson Five e tenho gana de seguir e de seguir e de seguir. E de te ver, e de dançar, e de continuar. Estranha irreprimível ledízia que jorde em qualquer intre de calma te leva polas minhas veias.
posted by Sao Tomé 20:08
Quarta-feira, Outubro 6
Druadan
Louvam-me (com fermosas palavras) o sorriso. Lembro dalgumhas outras vezes que me tenhem falado (ou tenho sabido) da estranheza que lhe supom à muita gente a minha capazidade para rir (Que nom acho que seja tanta, mas deve semelhar ainda menor do que é realmente). Lembro quem falara como lhe supugera umha surpresa a minha risa, logo de me ver tam sério; dalgumha rapariga à que asustava antes de falarmos.
E Lembro com todo isto dos Druedain, os homens dos bosques de Tolkien. Foscos, feios coma ninguém entre os humanos, afastados do mundo, possuiam sem embargo, segundo o autor, um dos risos máis lindos do mundo ( ' Suas vozes eram profundas e guturais, mas seu riso era uma surpresa' ).
E durante muito tempo pensei que, mais ainda do que anano ou hobbit (cos que se me compara mais habitualmente segundo as medras da barba), de ter que escolher, eu gostava ser um Wose, um druadan a viver no fondo bosque, calado e sério até que me explodisse a risa.
Nem tam distinto quiçais dum mim mesmo dalguns tempos que nom deixo de reconhecer.
posted by Sao Tomé 17:43
Gatos numha garrafa
Bebo meia garrafa de porto nesta temperá altura da semana, enquanto tu, onda a janela, das conta da outra metade.
Encontro nessa minha parte a tua conversa de volta. Están ai agochados entre o vinho e o cristal essas nossas sissudas reflexões sobre os próprios comportamentos, as palavras francas encol as cousas pequenas que nos dam ledízia, a inevitável e mutua posta ao dia das mais variadas questões.
Está também, tinta e morna, a túa velha aperta que quase nom me abrange, e grolo a grolo as horas que passam sem nos dar de conta.
Aínda dá para nos fazer um cigarro com as cabichas que ficárom quase intactas no borralheiro, para dizer dalgumha maneira 'que bueno que viniste'
até que na fim cometo o mesmo erro de cada noite e olho o relógio, e escandalizamo-nos um bocado e retiramo-nos aos respeitivos tobos.
posted by Sao Tomé 17:42
Terça-feira, Outubro 5
(Acotaçom: Um velho refúgio)
< Caminho sozinho pola zona nova de noite. A olhar os escaparates lembro das tardes de inverno em que escapávamos -ela e mais eu- e percorriamos as mesmas ruas e entrávamos nos comercios e mercávamos cousas pequenas e alugávamos um filme por sair daquela nossa prisom. Botávamos fora da mesa aquela realidade de obrigas e agóbios (tam empiorada pola paranóia e o ilhamento), visitando Natura, Folhas Velhas, Cantigas, Casa... E mercávamos pipocas, candeias, olhávamos as mantas. E era a nossa trégua antes da nova crisse que viria pola noite, quando a ela se lhe acumulassem as obrigas e os nervos, de novo, sempre tudo a ser de mais.
Ficou daqueles tempos esta pequena sensaçom de saber quanto acougo contenhem essas tendas, a aprendizagem de como um dia de dessesperaçom podo caminhar de novo por essas ruas, olhando, mercando, fugindo em fim polo meio da gente. E de novo esse dia lembrarei-me daqueles tempos duros e dos seus luminosos paréntesses, que podiamos desfrutar quiçais porque éramos ainda novos de mais. E nom será a mesma a ledízia.>
posted by Sao Tomé 18:57
Arrumaçom
Na noite e na sesta que boto sem ti (e na que já a cama pergunta polo teu sono cuberto até a cabeça),
no jantar o que ficou da fim de semana
no arrumar a casa que já se foi cobrendo de entulho e de roupa tirada a correr
nesta nova ausência que é a tua
arrumo também o andel das cousas pequenas
onde, é claro, fago um posto de honra
a carom da lavanda, do loureiro, da chorima e das outras ervas de estimaçom
onda as manhás de neno,
a sesta no sofá a olhar a luz que escapa polo meio da chuva,
onda aqueles banhos no rio
onda o zume de laranja enquanto amanhece,
onda a volta à casa nessas mesmas horas rua abaixo
E lá te vou instalando, calada e pequena,
entre os agasalhos que vai oferecendo na vida
e cos que aquece um o coraçom
nas noites de invernia.
posted by Sao Tomé 01:54
Segunda-feira, Outubro 4
Pola vida fóra
Mais umha vez, revelam-se-me insuficientes as palavras quando a vida irrompe coma nestes últimos dias (como se mais umha vez se me revelasse contrária à escrita).
Recorro entom à Calcanhotto (escuitada com sentimento), agardando ainda que acabem de pousar os latejos e as vertigens que me percorrem (por bem) e se poidam contar dalgum jeito.
Obrigadom
Depois de ter você...
Pra que querer saber
Que horas são
Se é noite ou faz calor
Se estamos no verão
Se o sol virá ou não
Ou pra que, que é serve uma canção
Como essa...
Depois de ter você
Poetas para que
Os deuses, as dúvidas
Pra que amendoeiras pelas ruas
Para que servem as ruas?
Depois de ter você...
/
posted by Sao Tomé 20:30
Sexta-feira, Outubro 1
Oraçom para manhá
Para manhá. Por todas as que marchastes, marchades, marcharedes ou voltades. Também polas que se achegam por primeira vez.
Abro a janela, encho a despensa.
Um fume de incienso, umha luz de candea
Para que voltes.
Beijos.
posted by Sao Tomé 22:30
Migrações felinas
E olhá lá, irmao, que agardava eu carta de Mistress Bloomfield desde Londres. E que chego à casa logo de jantar bom polbo na de Tino, assubiando ainda Belle&Sebastian, cum molho de flores na mao que me deu Bibi (baixou ao mercado a última hora e a senhora vendeu-lhe dous por um, e de agasalho um terceiro, que havia que marchar e nom era cousa de tirar a mercadoria. Olha lá irmao. E no peito os crachás que fixo Fer e que me agasalhárom el e mais Tino (1978, ano de boa colheita, e esse gelado de três bolas). E (olha lá), que nas escaleiras nom encontro a carta. Há sem embargo umha postal do Prinzipezinho, enviada desde Paris, na que se me anúncia que, em breve, ham voltar os gatos à minha janela.
(E que seja certo, e que venham, de pelagens e cores várias, e que acheguem uns carinhos que eu garanto hospitalidade, copos, conversa, alouminhos)
posted by Sao Tomé 18:17
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Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro
"Si o vello Sinbad volvese ás illas"
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