Trapobana

Terça-feira, Agosto 31

Lua e hipersensibilidade

Lua.

Desta volta apenas um cabreio directo e umha sensibilidade especial a pequenos detalhes que amolam. Também o já habitual repaso à minha situaçom sentimental, e ainda bom que desta volta sinto caminhos, acho de menos, enjergo esperanzas.

Lua. fechado na casa, trabalho a marchas forçadas, fago favores, saio e cumpro obrigas sociais.

Lua. Envio finalmente correios longamente demorados, volto, e mando-lhe por fim à Rebe a cita que me ficara incompleta na cabeça no meio daquela boa conversa sobre hipersensibilidade, há já muitos quilómetros:

"... ya la has cagado para siempre, hasta el final, a partir de ese punto ya no hay retorno, seguirás siendo uno que pasaba por allí por casualidad, con una lacerante maravilla dolorosa encima, y por tanto siempre más alegre que los demás, y también más triste, con todas esas cosas, mientras deambulas, por las que reír y llorar."
(Alessandro Baricco. City)
Tam certo tudo...

Lua, mas Belém encontrou trabalho, e imos brindar agora, e chamar pola ledízia,
e a tomar polo cu tudo, cona já!.
(difícil de explicar a situaçom, acho que invento umha emoticona): >-)
posted by Sao Tomé 02:52

Sexta-feira, Agosto 20

Anacos suaves

(...) O mundo nota-se mais suave quando se vai de bicicleta a assuviar. Encontro-me co eu que som fora do meu lugar (...) Parado, curioso, calmo, durmo horas de mais, fago cousas de menos (...) do mesmo jeito em que poderia estar noutro lugar, deixando fluir o tempo (...) mais canso do que pensara (...) sonhos e mulheres (...) A nuvens som fabulosas em alemanha, o verao aninha nelas (...) pedaleio baixo o trevom (...) Mestura-se o outono e o verao nas folhas secas de castinheiro de índias que enchem as ruas (...) lembro, escorregam ideias (...) Philip K. Dick trae-me a ideia de abandono para a fronte, lá mestura-se com outras que tanto tem (...) Antes do que a auséncia de Compostela, umha certa soidade apousenta e mim. (...) Verao, verao, verao. (...) Coma as mulheres de Macke. Em grupo, viradas as costas, sempre algumha vira a cara e te sorri.
Poderia ficar nesta cidade, onde sempre semelha ser domingo, onde abondam, como sempre, as meninas de bicicleta que olhas e te olham. Onde passa o rio coma umha eterna via de escape. Esta cidade que as nuvens percorrem em rabanho, prendidas nas árbores altas e na que caem os trevons. (Esta cidade é de mentira?).
Bejos.
posted by Sao Tomé 01:10

Terça-feira, Agosto 10

Anacos veleiros

(...) Danço descalço na praia enquanto se fai de noite e comprovo mais umha vez a lentura dos solpores do verao (...)
Apanho o comboio (...) Pergunto-me polos nomes da nuvens, em quantos jeitos se lhes poderia chamar (...) Acabo a noite bébado de porto na plataforma do comboio, com aqueles grandes amigos que fai o alcol.(...) Coma sempre na cidade, mulheres espléndidas campam por todas as partes, enchem as terraças, sentam à minha mesa(...) Converso com desconhecidos, sinto a gosto (...) Olho prostitutas, patinadores, graffitis (...)Deito no pátio co CCCB numha tumbona, olho de novo o céu (...)
Cá somos todos veleiros. Pendentes em todo momento de optimizar a corrente de ar que passa breve pola casa. Todos enchoupados de suor (e sal). Sinto coma nunca na vida o alouminho do vento enquanto durmo espido, fiestra aberta, pregando por um mistral, um nordés, um umha brisa qualquer que me traia um frescor que é, cá, a vida.
posted by Sao Tomé 20:36

Sexta-feira, Agosto 6

Movimento

Apanho por fim um comboio. Avança e ficam atrás os pensamentos estranhos que me deixam a família, a cidade, o sono raro.
Reconheço que tenho um humor estranho. E leio de mais e sem medida, e remato livros, e nom olho a paisagem, e penso de novo que preciso marchar, e que o chao se mova. E que mudem as árvores, e as sombras, e as companhas.
Que me lembro de mais de ti, e encontro-me achando já de menos (a esta altura do partido) a quem já nom contava achar de menos (E temo quando a sua marcha seja definitiva). E dou-lhe voltas a feridas velhas e estúpidas, e afinal nom aproveitei para me encontrar com aquel eu que passava o verao na casa e que o enchia tudo de sonhos e de objectos que ficam cubertos com o pó, e que nom reclamo ultimamente, embora sejam a única possibilidade de me encontrar dalgum jeito, lá na casa, comigo mesmo coma cum fogar.
Que vaia arrincando o comboio, e que lhe abram as fiestras todas.

posted by Sao Tomé 21:56

A cidade vissível

Fago mais umha vez de guia da minha cidade natal. Mais umha vez decato-me das grandes mudanças dos últimos anos, da gente que enche as ruas, das praças que aparecem por toda a parte e dos grandes anacos de céu que oferece. E semelha pronta para algo, esperta logo dum sono.



Comprendo entom um bocado melhor o Marco Polo de Calvino. Olho nesta cidade mudanças que som coma as minhas, sinto como eu também arrumei ruas, derrubei casas e tirei árvores que considerava sacros. Sinto como tenho praças novas cheias de gente e fermosas fachadas que poida fiquem sem contido por trás e que custárom bem mais do que deveriam. E poida que as terraças dos bares estejam a ocupar sítio de mais.
E sem embargo, decato-me como nom é tudo paralelo. Como me olho na cidade e nom me reflicto eu, como lhe vejo as minhas imperfecções e olho também as mudanças minhas que nom estám nas ruas, e que acho deviam estar, do mesmo jeito que acho em falta, nestes meus corredores internos, alguns dos passos que povoam a urbe.

E estamos prontos para espertar dum sono, pode ser, e pode ser já estemos a piques de despertar, e poida que nos olhemos nesse lusco fusco, a cidade e mais eu, com tensom, vendo-nos e tocando-nos mutuamente as fraquezas.
Pode que seja essa tensom que se estabelece entre os dous a que leva a este lugar
a espertar-me de novo cada manhá (seguindo a tradiçom dos últimos dez anos) co som das obras onda a casa,
a que fai que me doa o pescoço nas primeiras horas do dia e que sinta a vida acô transportada por mareias estranhas
que nom reconheço,
enquanto nom deixo de reclamar a minha propriedade
sobre aqueles lugares que já se perdérom
o meu orgulho
polos espaços conquistados.
E esta cidade nom é de mentira.
posted by Sao Tomé 03:58

Quarta-feira, Agosto 4

(Acotaçom: Mudança de paxaros)

< Agardo um comboio na estaçom e vejo a que acho é a primeira bandada de estoninhos deste ano. Acontece isto dous dias depois de ter-me sentado diante de San Domingos e me ter surprendido ao nom ver andorinhas. E será mentira, mas para mim é esta, já, a primeira sinal de que vem o outono. Aginha serám milheiros os estorninhos que atronem nas árbores, que povoem os céus. E já nom haverá andorinhas. Ou essa é a ideia que tenho, e perde tudo um bocado da ligeireza que julho confere. Beijos. >
posted by Sao Tomé 06:36

Terça-feira, Agosto 3

Comprovações

Nestes dias novos comprovo várias cousas. Som quem de sair da tua casa mais umha vez, meio renovado, enfiar a rua libertado até certo ponto de maus humores. Som quem de conversar contigo e deixar que as cousas esvarem.
Comprovo que som quem de beber mesmo de mais, e cantar até a afonia, e o fazer sem ter por quê, sem necesitar buscar-lhe causa.
Vejo que podo passar horas e mais horas e mais horas, diante dum taboleiro a jogar, quiçais só porque sei desse jeito que o podo ainda fazer e que ainda som dono de mim, e que ainda sei jogar, sem objecto.
Comprovo os meus horários, as datas das minhas viagens, os meus bilhetes. Aginha será tempo de marchar.
posted by Sao Tomé 04:33

Domingo, Agosto 1

E se nom
E se fico na cama todo o dia. E se nom falo. E se nom contesto o telefone. E se tudo da nojo. E se a angúria da soidade se apodera hoje de mim. E se a molesta sensaçom de ter a família em abandono zoa livre e constante pola minha cabeça. E se as cousas que tenho que fazer se acumulam e se multiplicam. E se a noite nom deu para nada à hora de sair. E se a noite deu para pouco à hora de durmir. E se a sensaçom é de fracaso. E se me refúgio na música. E se luito por meter beleça no meio desta breve hecatombe, apenas um bocado, e por se valesse de algo. E se me laio ainda mais porque nom estejas. E se me laio ainda mais por nom ter marchado ainda. E se nom sei o quê quero, só que se tem que semelhar alcol e a cigarros e a que seja de noite, que bicos nom vai haver, e se nom há ninguém, e se nom há ninguém e se nom há ninguém.
É que há lua. E este um dia mais, apenas um dia mais, com lua.
Menos mal
que me conheço.
A semana agarda, e detrás outra, e outra e outra. Todas para mim, detrás da angúria, da crisse, nas nuvens, da Lua.
posted by Sao Tomé 02:12

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Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá... Álvaro Cunqueiro "Si o vello Sinbad volvese ás illas"

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