Sexta-feira, Maio 28
Encontros
A sesta é imensa e demorada, embora o final fica um bocado abrupto (sentidinho e obrigas académicas).
De qualquer jeito, sinto-me pessoa de novo (nom direi umha boa pessoa, mas sim bastante contente), e vou de visita acompanhado por esta Íria de nova raça, que nom permite a indiferência no olhar.
Polo meio, tenho que parar três vezes para falar com outras tantas pessoas e grupos. Em saindo de Cas Tino, quatro ou cinco paradas mais. As propostas para prolongar a noite sumam-se umhas às outras. A gente está sociável e fai-se difícil nom parar no Mosquito canda a Fer, nom seguir um bocado mais a conversa com Maca, evitar a tentaçom de chamar ao Luigi e companhia e ir tomar ainda umha caneca.
Resisto-o. Adio encontros para manhá, para sábado, para domingo. Situo o durmir coma prioridade por primeira vez na semana.
Chego à casa às doze e consigo-o.
Antes de deitar-me penso que verdadeiramente está cá a lua de maio. Que a gente está carinhosa. Que eu também.
Que as ruas onde nos encontramos (em falando de propriedade) som nossas, que ainda tenho gana de dançar.
posted by Sao Tomé 19:30
Quinta-feira, Maio 27
Espertares
Esta semana semelha estar destinada a traer-me agradáveis espertares surpresa.
Ontem ao sair da ducha encontrava a Rosa polo corredor da casa, depois de ter chegado precipitadamente canda a Jandro a noite anterior. Cheio de sono, almorço de pé enquanto lhe vou debulhando as últimas ondas que trouxo a vida. Sentamos na cama e aparece Jandro, cheio de sono e sem barbear. Enquanto Rosa fala por telefone, el ocupa-lhe o lugar e seguimos a falar de vagarinho, até que marcho correndo porque chego tarde ao trabalho. A sensaçom familiar a tais horas da manhá (e mais com tal família) é altamente reconfortante, e fica a mágoa de nom termos mais tempo, de serem sempre escassos os anacos que compartimos.
Hoje almorço bem acompanhado também. Ainda que semelhava impossível tenho ainda mais sono acumulado. De novo a conversa é vagarosa, mas desta volta o café e as magdalenas venhem acompanhados de bons beijos. Nom deixa de ser um bocado de surpresa encontrar-se ai (encontrar-te ai) e despedirmo-nos no meio do Obradoiro.
(Poida que manhá apareçam polo corredor Jordi e mais a sua irmá, que se achegam à cidade para ver Extremoduro.
E a saber por quê outras veredas continuarám os almorços.)
posted by Sao Tomé 21:17
Quarta-feira, Maio 26
(Acotaçom XXX: Dono)
< Saio a correr do trabalho. Apanho o comboio. Cheio de sono. Levo dous dias fechado a estudar, durmindo mal. Repaso. Chego a outra cidade. Como a correr. Outro autocarro. Fago um exame. Saio e agardo outro autocarro. Ainda falta mais um para voltar a casa e atopar a Jandro e a Rosa que venhem de visita. E tomar-lhe umha e nom ficar durmido nos bares.
No meio, desde os intres em que agardo polo primeiro comboio, começo a ter essa sensaçom.
Fago tudo isto porque me peta. Fago-o seu sozinho e só ante mim tenho que responder. Ninguém me manda. Ninguém me obriga.
O orgulho que me produce ser quem de estar a estudar por hobby umha segunda carreira (há dous anos nem podia pensar nesta possibilidade), a sensaçom de ser dono da minha própria vida nom deixam de me surpreender de quando em vez.
Ser consciente da minha capacidade de iniciativa nom é pouca cousa, sobretudo para alguém que, coma mim, se sinte muitas vezes coma um elo no que confluem circunstáncias e que carece de controlo sobre a sua própria vida.
Para além, acho que essas horas de silêncio e de soidade que me dám estas pequenas viagens servem-me em boa medida para apousentar a vida.
Quiçais tenha deixado também, estes últimos meses, passar as possibilidades de me sentir assim. Quiçais o tenha feito pagar indirectamente a quem nom devia.
(Penso isto mestres agardo por um dos autocarros. Fumo um cigarro e olho
um gato imenso que me olha,
as casas feias de formigom,
as nuvens que ameaçam no céu,
a estrada que corre cara algures) >
posted by Sao Tomé 22:39
Retorno à gravidade
Íria volta das férias mais esplendorosa do que nunca. A pesar de que o tempo nom acompanhe, a primavera aninha (coma tantas vezes) dentro dela. Tenho que vir eu, (na minha última tendência a andar cumha poça já enganchada na perna, pronta para meter constantemente o pé dentro) que vir machacar em boa medida a sua radiante situaçom.
Embora seja maio, embora saiba eu já perfeitamente que é o intre para agromarem os malentendidos, embora seja a lua, e haja sono e tudo.
Mais umha vez, a gravidade em Trapobana amosa-se maior do que é fóra da Iha. E a pedra que me cai na cabeça, e as pedras que atirei sem apenas sabê-lo, fam hoje por mo lembrar.
(Como também me lembra esta minha menina que o verao, já o dizia Benedetti,
"De todos modos cambia a las muchachas,
las ilumina, las ondula, y luego
las respira y suspira como acordes,
las envuelve en amor, las hace carne,
les pinta brazos con venitas tenues
en colores y luz complementarios,
les abre escotes para que alguien vierta
cualquier mirada, ese poderhabiente." )
posted by Sao Tomé 22:22
Terça-feira, Maio 25
(Acotaçom XXIX: Cansaço e post em ondas)
< (Fluxo:) Às vezes penso, menina, que o que mais nos une (a ti e a mim, a vós, a nós) é esse grande desporto de analisar, maldizer e julgar à eterna terceira parte (que, desta volta quadrou que som eu).
(Refluxo:)Nom tem mal.
(Fluxo:) O triángulo fai-se mais umha vez muito isósceles (já leva um tempinho). E desde este vértice afastado, já o vejo normal, coma parte dessas nossas marés particulares, que nos afastam e nos achegam alternativamente e de jeito assimétrico desde há anos (nunca nos quadrou, acho, arrejuntarmo-nos os três, andarmos mais separados).
(Refluxo:) Nom tem mal.
(Fluxo:) Unicamente me pergunto como é que ainda há quem se estranhe de que nom me encontre incómodo a dançar num quadrilátero, quando levo tanto tempo embarcado nesta estranha relaçom triangular.
(Refluxo:) Nom tem mal. Aledo-me de ver que se vos acurtam as distáncias. Estou afeito, e em geral nom lamento o jeito que temos de nos bambear.
(Fluxo: )Mas hoje, a verdade, acontece unicamente que estou canso, que som consciente, que (sobretudo) tenho sono e que o ar clama trevom.
(Refluxo final. Maré baixa.) Beijos para as duas, de qualquer jeito, com o amor de sempre, coa distáncia que nos toca. >
(Mantra e envoi: A vida vem em ondas coma o mar)
posted by Sao Tomé 19:44
Segunda-feira, Maio 24
Isn't it wood?
É quiçais a minha maior cançom fetiche, e acho que responsável em boa medida de como vou sendo.
Desde os treze anos comecei a sonhar com encontros coma os que narrava o Lennon.
(Digamos a verdade: McCartney nom tem nada a ver com este tema. E como curiosidade engadamos: É esta a primeira gravaçom com George Harrison tocando o sitar.)
O caso é que, desde aquela, ainda tivem e (por fortuna) tenho encontros semelhantes, fabulossas noites de conversa com rapazas que tenho (ou deveria dizer que me tenhem).
E poida que amaneça sozinho, que fique a durmir no banho, que volte à casa.
Mas às vezes nom.
E, ao fim sempre, acendo um lume com esses intres (nom é isso bom?), essa Madeira Noruega coa que me aqueço.
posted by Sao Tomé 22:33
Meditação
Passo dous dias quase inteiramente fechado na casa a estudar.
Coma é habitual nestes casos, e mais ante um texto árido, a cabeça age pola sua conta e aproveita.
Deste jeito enquanto olho as hortas e o avance das tardes, entre linha e linha, vai-se formando um estranho tapiz de temas no que alternam os fios dos trevões,
os de comer a cabeça cos problemas doutros,
os dalgumha gente que conheci ultimamente, os daqueles que voltárom, os dalgumha viagem,
os dos amigos que estám ai sempre sem julgar, os daqueles se vem pouco,
os do meu estranho bom estado,
os do licor café da sexta às catro da tarde, cheios de sono e a celebrar,
os das mais estranhas hipóteses sobre dedicar-me a outra profissom...
(reconheço que a miudo as febras vinham tingidas com a tua cor)
Em resumo, o cérebro aproveita estas estranhas para el horas de calma para exercer essa caste de meditaçom inconexa que transcorre alterna com as páginas. Essa sedimentaçom que há já tempo nom tinha.
Sei desde há tempo que é o meu jeito de vida. Que para ir bem, preciso que as cousas pousem, ou acontezam a umha velocidade moderada. Meditação.
(No meio desse estranho tecido, vejo a imagem dum globo a arder, e imediatamente penso nalgumha grande ida de perolo já mentada acô. Mais um factor desencadenante a ter em conta.)
Cara ao final de cada dia de enclaustramento chega, como é inevitável, a sensaçom de fastio e a necessidade de ver alguém e sair da casa.
Apanho como podo (já som receitas velhas), releio algumha cousa boa, escuito algo, lembro dalgum intre.
(Ou recebo umha mensagem, e temos um bocado de conversa que me fai sentir um bocado mais novo, sem todas estas horas enriba. E mando-che um anaco de cançom.)
E vou durmir.
posted by Sao Tomé 20:19
|
Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro
"Si o vello Sinbad volvese ás illas"
Past
current
conta-me
algo |