Sábado, Maio 22
Solidariedades e oda
Acusam-me de me aledar mais polas cousas boas que lhes passam aos demais que polas próprias. Duvido que seja certo.
Mas, do mesmo jeito que a saudade (que cantava o Jobim), a ledízia, se existe, é minha. Será-me mais sinjelo manifestá-la nas felicidades alheias. Mas também sei que tenho gente que manifesta bem por mim as minhas próprias ledízias, e ainda as dores e as mágoas.
Ultimamente temos bastantes destas mostras de solidariedade, e é fermoso ver nos rostos dos amigos o teu próprio sorriso, e sentir no teu rosto a sua ledízia calada.
Hoje estou contente de qualquer maneira. Por mim e por (quase) todos os meus companheiros (como berrávamos ao jogar às agochadas).
Gardo estes intres no faro com o que dá luzes na noite a ilha Trapobana, que sirvam para dias mais escuros.
Por se fosse pouco, e como se pode ver ai embaixo, atopei de casualidade a tumba do bom Cosimo Piovasco del Rondó. Enriba dumha árbore, é claro. Abençoado seja o seu nome.
Hoy dejadme, a mi solo, ser feliz (contigo, con tu boca).
Ser feliz.
posted by Sao Tomé 01:46
Sexta-feira, Maio 21
Mudança de fotos
Coma se o mundo levasse um mes tentando confrontar-me com o eu que era há um par de anos.
Coma se nom fossem abondo os reencontros com Julianne, com Frauke, as memórias com Maria, as lembranças inexoráveis de cada abril.
Coma se nom tivesse eu já claro o veredicto.
Aparece no meio da noite, no meio da gente, tirada do fundo mais fundo dum velho armário (lá onde gardo as fotos que gosto de ver amarelear), a fermosa Lorie.
Lorie agora feita carne, exiliada do mundo de lembranças onde a tinha.
Lorie mais magra, com o cabelo longo, mais velha coma todos.
Foi lá aquela rapariga de vinte e um anos que era. Fórom lá as minhas tentativas. As ceias pausadas. Os pementos de padrom. O tempo das cereijas.
Os olhos som os mesmos, e também o sorriso. Enfronto-me com eles sem que mude o veredicto. Nosotros los de entonces ya no somos los mismos. E ainda é bom.
Bem vinda, menina, embora seja por pouco tempo. Bem vindos os teus olhos e o teu sorriso, bem vindas as tuas novas. É mágoa (um bocado) despedir o ti que gardava na memória, mudar as fotos do armário, enterrar aquela rapariga que olhei muito tempo coma the most wonderful puellam de todo el mundo (como dizia Cosimo nos seus trassacordos).
Nom a esquecerei.
posted by Sao Tomé 19:00
(Acotaçom XXVIII: Notas do passado)
< Continuando na tendência que tem o destino a me enfrontar co meu próprio passado, atopo, ao abrir "O baron rampante" na busca dos trassacordos do Cosimo, umha nota.
Ainda que anónima, reconheço bem a autoria dos números. Numha folha de calendário do 26 de janeiro de 1998, umha cita impresa: "Lei de Tussman: Nom há nada mais inevitável que um erro inoportuno".
A anotaçom, unicamente "177-186". O capítulo (Colecçom Xabarín , de Xerais) no que o Barom Rampante reencontra a Viola.
Tinha (suponho que conservará ainda) essa minha Viola grandes dotes para este tipo de detalhes e de mensagens.
Mas tanto tem. Para além do fermoso do facto, é esse um passado que já nom remexe nada, há tempo que lhe tirei esse poder, já não enche. >
posted by Sao Tomé 18:28
Chuvas de verao
Acontece de novo. Logo do demorado anúncio das nuvens invadindo aos poucos anacos do céu, umha chuva grossa e feroz volta limpar o ar. De novo trae o arrecendo da terra molhada à minha fiestra enquanto frego, de novo trae-me a gana de sair à rua a me limpar também.
Contara-me Tino algumha vez que esse arrecendo é o que produzem certos microorganismos que vivem aletargados no chao até que se molham, intre em que espertam e, por um breve anaco, aproveitam para se multiplicar (para nascer dessesperadamente, como di o Benedetti que fam os fungos no xardín botánico). Resulta entom que ulimos, en intres coma estes, o arrecendo dum imenso coito, o qual, ao meu ver, nom lhe tira beleça à questom. (É quiçais por isso mesmo que gostemos desta terra molhada, mesmo sem saber).
Para já. Está tudo mais claro. Já o cantava o Caetano: Som cousas do momento, som Chuvas de Verao (os sentimentos passam como o vento).
posted by Sao Tomé 18:27
(Acotaçom XXVII: Na busca da água)
< É certo que também é porque a roupa enjoita antes. É certo também que é porque tenho que começar a estudar e ando com a fevre de limpeça prévia. Mas nom deixa de ser certo também:
Desde que veu este verao do que venho enumerando os síntomas, e para além de andar mais espido pola casa, estou a lavar seguido a roupa toda que se acumulara. Estou a tender as prendas húmidas na cozinha e as sentir como arrefecem o ambiente e como soltam o arrecendo fresco amaziador. Ando a amassar a mao as camisas que há que lavar na água fria. A assomar-me à fiestra enquanto chove agardando ser abençoado por algumha pinga. A nom perder ocasom para lavar a louça, e molhar-me. O corpo pede água, a pele pede rio, ando com sede, diria-se (e os meu olhos pedem teu olhar). >
posted by Sao Tomé 18:11
Quarta-feira, Maio 19
Campiona!
E, embora cum bocado de atrasso, aproveito para parabenizar a Anjos por esse Prémio da Crítica. Ainda bom que se vam reconhecendo algumhas cousas boas!
Beijos à ganhadora.
posted by Sao Tomé 21:20
Deuses da chuva
Começam os trevões. Segundo a mae de Maria e a tia de Belém venhem com atrasso este ano porque a lua de maio ainda começa agora (é visto que ainda tenho muito para aprender sobre isto).
Aconteze entom que estou na casa, a fregar com água fria (mais um síntoma de primavera voraz) a louça de toda umha semana com a fiestra aberta e o arrecendo do lavalouças por toda a parte.
E, logo dalguns lóstregos, começa a chover por fim.
A modinho, começa a se respirar melhor, e chega até a minha fiestra o arrecendo (por fim) da terra molhada.
Por fim. É a expressom única que se me ocorre. Por fim esse alívio, esse enchoupar o pó e fazê-lo chao, esse molhar o telhado, esse refrigerar esta vida acelerada.
Deixo a fiestra aberta. Que se molhe um bocado o chao, a vassoura, o caldeiro do lixo. Canto. Olho.
Sinto algum tipo de agradecimento (por fim) e vem-me à cabeça do fondo da mente, a jeito de plegária, a velha cançom.
Dios de la lluvia abrázame
y bajo tus nubes volveré a considerar
las múltiples formas de besar...
(Afinal, pouco depois de fotografar o solpor mais vermelho que lembro nessa casa, achega-se Sérgio na já habitual visita. Estamos no salom, com a fiestra aberta, e agradeço por primeira vez no ano o sopro de ar que vem da rua a me aliviar o calor. Olho o teito e nom tenho dúvida. É verao, ou maio, ou o que for.)
posted by Sao Tomé 20:42
Terça-feira, Maio 18
Umha outra vida é possível
Estou canso. Noites curtas (ou muito longas, segundo se mire) e dias intensos fam que me doam pequenas partes de tudo. Que o pensamento vaia a modo.
E, sem embargo, por razões várias, encontro-me ao borde teórico dumha vida bem distinta à dos últimos meses.
Rematadas certas responsabilidades, pendentes ainda algumhas outras, o cérebro fica um bocado descontraido. Embora haja concertos, e festas, e ceias que fazer e porto por beber, o ritmo fica inexoravelmente mais lento e, ainda sem o assmilar de tudo, deixo-me arrolar na sensaçom de seguridade que outorga este quase verao, sem perder de vista maio pola beira do olho, sem perder de vista os elementos inestáveis da minha vida, sem agardar realmente tanta mudança.
(E, é claro, sem te perder de vista muito, menina).
posted by Sao Tomé 20:42
Domingo, Maio 16
(Acotaçom XXVII: A promessa de maio)
< Som seis da manhá. Despedimo-nos na minha porta.
Seguindo a sugerência (a sua) e o desejo (o meu), deito-me de novo na cama-sofá do salom, tapo-me com o nórdico (agora já eu sozinho) e deixo-me anainar por Cesária, calmo, canso e contente.
(E é que, de quando em vez, maio cumpre as suas promessas boas.
E, de tudo, apenas isto é o que fica cá.
Os beijos gardaremo-los nós.) >
posted by Sao Tomé 01:21
Invasom
E velaí que escrevo agora, com Tryo, com Tribalistas, com Sílvio a grande volume a proclamar-lhe à rua que é agora a primavera de verdade, que nom há escapatória.
Levo as sandálias postas, e o pelo molhado e solto, umha camissola laranja. Por se nom fossem estas mostras de abondo, direi que as terraças estám cheias. Que as meninas estám lindas. Que há três moscas a voar polo salom. Que a minha querida Titi, coma no seu intre Cleo desabrocha um a um e com boa força o seu bom molho de botões. Que, para além das suas, mi casa ha sido tomada por las flores (passa pouco, pero passa, compadre).
posted by Sao Tomé 01:16
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Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro
"Si o vello Sinbad volvese ás illas"
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