Trapobana

Sexta-feira, Abril 30

Insónia

Nestes dias de se ter que fazer duro, de pensamentos confusos e inquietudes involuntárias, de sono nunca abondo, de me preocupar e de estar de mais, recupero (também ao jeito de mantra) um velho poema de há anos.
Porque existe essa parte em mim, embora nom se veja muito por Trapobana e nem sequer pola vida.
Porque é possível que qualquer dia fique preso dessa caste de insónia lúzida.
Para os navigantes fica feito o aviso, nom vos assustar.

Entre a gente que desconheço
vam aninhando certezas em mim:
Possuo umha parte
dura coma o canto dum coitelo.
É o anaco que me leva
ás camas das mulheres maduras que agardam nos semáforos
aos bares da zona nova
ao fume do tabaco e às manhás de sábado
anuvadas e desertas num aparcadoiro.
É o anaco que emprego
para pranar as patacas que me vai tirando a vida.
conheço-o desde há tempo,
o tempo tudo que levo luitando contra el.
Tenho-o gardado
nos pregues brandos do cérebro,
entre as apertas que atesouro.
Se um dia medra
poida que me veja
eternamente esperto na manhanzinha
com barba de três dias,
o cigarro do jejum que me atormenta
e a olhada lúzida do gume
que penetra e fire o mundo
ao me ferir.

posted by Sao Tomé 18:03

Mantras de teimosia

Complicações e ralhaduras mentais. Repito-me:

Que me puedan mentir
o decirme lo que es mejor.
Que yo sepa negarme a su juego.
Barre el viento lo que es incierto y es
la vida lo mejor del desierto que es la propia vida.

E saio ao mundo.

(Era visto. Afinal choveu quase todo o dia, apenas no meu jantar houvo
raiolas de sol.)

posted by Sao Tomé 03:07

Quinta-feira, Abril 29

Meteoropatia: Muda o tempo, mudam as vontades

Agardando, (embora com menos ansiedade do que o Javi) a vindeira Lua Cheia, sofro coma todos a mudança do tempo.
Enquanto esperto, e antes de abrir a fiestra, penso que algo tivo que passar, já que durmim coma um bendito e ainda custou bem erguer-se.
Agardo que a pequena sensaçom de calma continue um bocado e venha um pouco de descanso, para podermos continuar o ritmo primaveral com saude.
Preocupa-me um bocado a ausência dos trevões de Sam Marcos, se mal nom lembro, a avoa de Blandino (meiga de toda a vida) dizia que isto quer dizer que imos ter lóstregos umhas poucas semanas nos vindeiros tempos. Embora goste deles, temo os seus efeitos
Martim (Grande Duque de Branco e em Botelha) envia-me um programa para ter controlada a lua em todo momento desde o meu computador. Adjunta as coordenadas de Compostela para que a cousa seja exacta. Ai as vam para quem queira estar informado
LATITUDE 42°53.2'N LONGITUDE 8°33.1'W ALTITUDE 265 m

Vendo como anda a primavera e continuando a colecçom, merquei-lhe ontem ao fer Ventos de Forsa Sete, para pôr nesses dias em que se há notar o vento do Sul (ou Leste-Surleste).

posted by Sao Tomé 18:16

Quarta-feira, Abril 28

Da gravidade



Escrever é perigoso. Já nom é a primeira vez que depois dum post minimamente pessimista chegam-me chamadas e correios de preocupaçom e consolo.
Normalmente a conversa desenvolve-se nos seguintes termos:

- Como estás tio?, estás bem?
- Sim, por?
- É que lim Trapobana e fiquei todo preocupado/a

Realmente ve-se que o poder dramático da letra é maior do que o seria se estivesse a contar determinadas cousas de viva voz e cumha birra na mao.
Acontece que Trapobana é também para desafogar. Para cantarse las verdades.
E é sabido as canções semelham a miudo mais tristes do que é a realidade.
Em geral, a gravidade nom é tanta nesta Ilha.
Quando é, já me encarrego eu de chamar, e fazer visitas, de pedir asilos, apertas, conversa banal, licor café.

posted by Sao Tomé 18:20

Passagem a Trapobana

Fer fai-me chorar um bocado ao me enviar umha passagem para Trapobana.

Realmente há visitantes que som umha honra para esta ilha.
Muito obrigado companheiro.
posted by Sao Tomé 04:10

Terça-feira, Abril 27

Ecos de abril

Semelha que voltou já a temporada de espertar cedo de mais, com os paxaros a cantar onda a fiestra. Semelha que vai sendo hora, realmente, de mudar de almofada, e ver se assim melhora o descanso.
Semelha que o parom de actividade festiva e a pequena ausência de Frauke provocárom um descenso na montanha russa.
E esta sensaçom de olhos cansos e de sono imenso e os músculos do pescoço contraidos e os aniversários velhos e a visita de Frauke e os rozes e as distáncias com a gente que mais quero e a luz nova e as asuências levam-me de volta a outro abril.
Há dous anos passava esta época deitado no sofá lendo dessesperadamente a Benedetti e escuitando Cesária Évora. Estava daquela namorado dumha (em realidade de duas) raparigas dum jeito abstracto e com escasa esperança. Havia inquedanças várias no ambiente, nom durmia bem, estava cá esta sensaçom de areia entre os lenções.
Imediatamente volto a outro abril. Três anos já, num dos meus intres mais baixos. Consciente de que estava tudo por fazer, incapaz de compreender as mudanças ao meu redor. Perdido.
Volto a outro abril. Há um ano. Coma agora, em certo jeito, havia equívocos e distáncia, e começava a tomar eu essa dolorosa consciência que ainda nom me abandonou: que também podemos perder a quem mais amamos. Que também se pode perder o que mais amamos.

Em geral decato-me com tudo isto do de sempre.
Que o tempo é relativo. Que três anos é muito tempo mas nom de abondo.
Que também se pode perder quem mais amamos.
Que a vida se complica aos bocados, que aprendo a olhar os matizes.
Que, de quando em quando, continuo a ter gana de mudar de planeta.
Que preciso parar. Durmir um bocado mais. Ler a Benedetti e escuitar Cesária com dessespero.
Que te agardo.
Que me dói.

posted by Sao Tomé 19:04

Cala



Frauke marcha de excursom e deixa-me no salom umha cala que recolheu dum jardim de há três anos -coma tantas outras cousas que todos recolhemos estes últimos dias-.
No silêncio obrigado de estar sem electricidade na casa, a luz pom-lhe à jornada um gosto de férias que custa crer que nom seja certo.
Penso de mais em certas noites e decato-me
-mais umha vez-
de como o sol
lhe dá senso à pele.

posted by Sao Tomé 01:24

Segunda-feira, Abril 26

O que tinha que ser

Já foi lá a fim de semana.
Comeu-se o que se tinha que comer, bebeu-se o que se tinha que beber, fumou-se o que se tinha que fumar, lembrou-se quem tinha que lembrar, cantou-se o que se tinha que cantar com a emoçom necessária.
Durmiu-se isso sim, um bocado menos do que se devia.
Rematou polo de agora a história voltando para a casa na noite do domingo, roupa já de verao, agradecendo mais umha vez qualidade que tenhem a hospitalidade e a companha dos bons amigos que ficam pola cidade, e que o fam sentir a um sempre bem vindo a este mesmo lugar (do que nom marcho).

Enquanto lembro, agradeço à Olalha as louvanças para Trapobana.
Visitas de luxo as que tem esta Ilha.
posted by Sao Tomé 19:48

Domingo, Abril 25

Sempre



Felicito-lhe a data à Margarida:
"Feliz 25 de abril.
Que nom morram os sonhos embora vaiam colhendo, com o tempo, cor sépia.
Que fiquem vermelhos os cravos.
Beijos. "

Vaiam para todos também.
posted by Sao Tomé 04:51

Implacável

Frauke trouxo esta implacável primavera.
Vim a estaçom hoje na forma da rapariga morena da saia raiada que lia um livro ao sol nas escaleiras de história e de quem nom puidem evitar namorar um bocado.
Vim-na também em Bonaval, na lisca que era a lua no céu azul mentres caiam sobre mim as sementes das árbores e eu cantava, para variar Caetano. Nas mulheres deitadas na erva. Nas canções que jurdiam soas e nas terraças com Carlos e com Sérgio.
Íria floresce, como nom.
Passei a tarde também a lhe fazer mimos a Noa, a sua cadela, coa que a minha relaçom vai vento em popa.
A vida (que vem em ondas coma o mar) transcorre num estado de calma um bocado expectante.
Decato-me de quê pouco tempo som três anos para segundo quê cousas.
E sim sinto um bocado de fracaso ao nem lhe grandes novidades que contar à Pequena Criatura Alemá.
posted by Sao Tomé 04:50

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Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá... Álvaro Cunqueiro "Si o vello Sinbad volvese ás illas"

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