Trapobana

Sexta-feira, Abril 16

Trevom nos dias de sol

Eu bem sei que tenho boas razões para temer a primavera (para além das consabidas meninas de olhos verdes).
Comprovo esta semana como todo o mundo vive acelerado. Como os comentários sobre as noites em branco multiplicam. Como sobem as discussões e os enfados. Como eu mesmo estou a piques do breakdown.

Por fim, na tarde de ontem parou tudo um bocado. Umha mínima sesta depois da visita para jantar que nom agardava. Tai Chi entre os carvalhos. Conversa lenta com o Luigi sobre mulheres, férias e livros. Depois parar na casa. Escuitar música e silêncio. Recolher a roupa, fregar a louça de meia semana. Ler um bocado com o encefalograma totalmente horizontal.
(E, nesses intres, por vez primeira nuns dias, vem-me à cabeça a ideia que era bom estares cá, tu também no meu salom, a olhar o solpor demorado.)

Hoje já ameaça a chuva.
Agardo logo umha pequena pausa nos ánimos, em preparaçom dos consabidos futuros trevões (e nom falo dos que virám, inevitavelmente, polo Sam Marcos).
posted by Sao Tomé 19:27

Quinta-feira, Abril 15

( Acotaçom XXIII: Confirmo a primavera )

< Mais umha vez, confirmo a primavera.
Vim-na baixar ontem a rua de Sam Pedro. Tinha o embigo ao ar.
Levava o cabelo rizado e escuro naquel momento, olhos fondos e umha das primeiras camissolas de tiras.
Gostava de lhe dar melhor bem vinda.
Haverá ocasões, agardo, já que estou certo de que aginha se multiplicará por todas as ruas.
Para goze e dessesperaçom dos meus olhos. >
posted by Sao Tomé 20:39

Quarta-feira, Abril 14

Cançom de quando neno

Ao me lembrar Maria a data, recupero para Trapobana umha história do último fim de ano.

Estou eu no banho na casa dos meus pais, arranjando-me para o que seria umha noite de muita amizade e reencontros.
Escuito entom desde o fundo do corredor, provinte do quarto que comparto lá com o meu irmao, o seu telemóvel a sonar.
Penso entom que a melodia soa-me muito conhecida. Dalgum jeito sei que é umha cançom que tenho vencelhada à família, algo que a minha avoa me cantava sendo eu neno.
Tardo ainda quase dez segundos em reconhecer a música. E começo a rir.

(Por Hermínia, ainda republicana aos seus actuais 91 anos,
polos mineiros do seu Lousame (naquel vinte de xullo de mil novecentos e trinta e seis, que dizia o Ferrim),
bom Dia da República)

posted by Sao Tomé 19:34

Da propriedade dos lugares III: Significados



Atopo de novo na rua a Maca, que continua na busca dos petroglifos do Pedroso para essa excursom que lhe tocou organizar. Ofereço-me para contactar gente, falo-lhe de cousas que se podem contar do monte, chamo a Tino que também se suma ao bombardeio de informaçom e de recursos.

A questom é que gosto que a nossa paisagem quotidiana tenha significado. Saber as histórias que estám por tras das cousas ou montar as histórias que se lhes podem achegar.

Quiçais é esse gosto o que me leva a aplaudir as camissolas do Fer, que dam um novo jeito ao nosso contorno tudo. O que faz que adore os gatos que aparecem pintados na rua e nos fam olhar diferente os recantos. O que me leva a olhar as portas velhas e as casas em ruinas, os ramalhos que se vem por riba dos muros dos conventos.

E será esse gosto o que me leva a olhar polo miudo as barandas modernistas que se agocham na rua das Hortas, e a agradecer saber qual é a Casa da Tumbona na que nasceu Díaz Pardo, e onde estivo a primeira imprensa Nós, e em qual casa vive Xosé Chao Rego.

E será esse gosto o que me leva entom de jeito automatico a lhe botar umha mao a Maca e, ao igual que Tino, pensar nas múltiplas possibilidades que oferece o Pedroso para ser singularizado, para que a gente o olhe diferente e passe a ter um significado.

Nom sei por quê, mas sei que essa é umha das minhas luitas básicas: o conhecimento do contorno imediato; o apreender a olhar com capazidade de surpresa o que olhamos cada dia; o outorgar um significado às cousas que nos arrodeam ou conhecer o que já tenhem.

Nom sei por quê, mas penso que é melhorar o relacionamento da gente com a sua quotidianidade, também a nível simbólico, é basico para qualquer revoluçom.

posted by Sao Tomé 18:49

Terça-feira, Abril 13

Mantra de teimosia VII: O inevitável defeito

Até me estranha nom me ter vido à cabeça até hoje. Esta cançom é umha habitual da minha cabeça quando lembro certos bons intres com saudade.
E é especialmente ajeitada para os últimos tempos, visto o visto, e vivido o vivido.

No quisiera un fracaso en el sabio delito
que es recordar.
Ni en el inevitable defecto que es
la nostalgia de cosas pequeñas y tontas
como en el tumulto pisarte los pies.
Y reír y reír y reír,
madrugadas sin ir a dormir,
sí, es distinto sin ti.
Muy distinto sin ti.

Pois é. Beijocas.
posted by Sao Tomé 21:02

A mao direita



Confeso-o. Tenho artrite reumatoide, umha variedade que os análises médicos nom conseguem reconhecer (o qual nom é tam estranho). Polo que di a ciência, a enfermidade é autoinmune, é dizer que dalgum jeito, o meu corpo rebela-se contra sim mesmo. Nom é grave polo de agora, sempre e quando nom se desboque cos anos.
Tendo em conta que até há pouco tempo a atrite era considerada umha enfermidade psicossomática, é significativa esta ideia de ser umha revolta contra um mesmo. De facto, os factores psicológicos, fundamentalmente o stress som determinantes para a evoluçom da enfermidade.

Durante muitos anos a minha mao direita inchava, entumecia-se e doia como mínimo um par de vezes à semana, ficando inutilizada para um lote de tarefas. Ainda bom que som esquerdo (canhoto) também para a escrita e demais funções. Com menos freqüência os nocelhos, a boneca esquerda ou algumha outra articulaçom lembrava-me a sua existência.
No meu proceso de reconstrucçom dos últimos anos, a luita contra esta enfermidade estivo na cabeça das prioridades, e depois de diferentes tentativas, achei no Tai Chi a ferramenta mais efectiva nesta guerra.

Nesta altura da vida, a mao ataca de quando em vez.
Especialmente quando levo algum tempo sem practicar, como é o caso hoje. Especialmente quando a vida se carga de cousas.
É o meu sinal de alarma. A minha mao indica quando vai tocando parar.
Os que me conhecem já sabem como vai a cousa. É Laura quem mais se decata quando é que estamos juntos e eu toco a mao.
Fazendo a piada com a mao de pedra que tem Hellboy, podo dizer que é também a minha "A mao direita do destino".
E nom tem mal. Hai-che jeitos piores de se decatar um de que está sobrecarregado.
Eu vivo com a minha mao.

posted by Sao Tomé 19:51

Encher o dia

(12/04)
Começo a fazer a ceia enquanto ainda é dia. Bebo umha Grimbergen, sozinho na casa e escuitando a selecçom de velhos êxitos pop. Decato-me de como há para um ano que nom tenho determinadas sensações, e consagro mais umha vez a entrada da primavera.
A sobreactividade da tarde deixou-me canso e contente, o dia foi-se enchendo. Em boa medida o nojo das férias havia ter a sua origem na necessidade de adiar cousas que hoje figem por vez.
Venhem a casa Sérgio e Carlos, e Julianne.
Coma numha nova ediçom da vida de há já dous anos, ceamos, bebemos e rimos. Eram outros tempos, mas nom muito melhores. E tenhem esta vantagem de poderem reeditar apenas com nos juntar.
Fica para manhá umha linda resaca, acho.
posted by Sao Tomé 19:43

Segunda-feira, Abril 12

Trapobanas



Buscando pola rede atopo a confirmaçom do que dizia o Cunqueiro. Trapobana nom é que nom a haja.
Embora o nome se lhe tenha aplicado a diferente ilhas ao longo dos séculos (já desde Plínio), na actualidade localizei umha pequena ilha, ao carom de Ceilám/Sri Lanka, que leva o nome de Taprobane.
Para além da fabulosa imagem que ilustra o post, a ilha conta também cumha história fabulosa na que aristócratas franceses se misturam com escritores retirados (nada menos de Paul Bowles e Arthur C. Clark), num ambiente de fábula e decadência muito ajeitado ao nome.
O que som as cousas, na actualidade aluga-se a turistas com cartos (maus tempos para os sonhos)
Será cousa de ir um dia de visita.
posted by Sao Tomé 21:44

Férias off

Rematam estes dias de supostas férias. Sinto que continuam muitos asuntos sem se resolver, que tenho cousas de mais cabeça, no naris e na gorja que me atacam o sono. Bons forom os reencontros destas datas. Bom também o vento que nos trouxo dias claros. Bom foi o licor de rosas com Rapo e com Sérgio, com Caetano e Sílvio e a tentar novas canções. Boas fórom as risas co Lois, as tardes com Maria.
E, sem embargo, nom tirei ainda de enriba a sensaçom pessada de voltar da casa, a apatia de nom ter novas, a tristura inerente do nom acontezer rem que alede a pele, e faz falha.
Dum jeito lato, agardo o descanso nos dias que virám, um maior recolhimento, a resoluçom sempre parcial de situações várias, um pequeno cargamento de alouminhos que venham nas tuas maos, que nom falte a luz.

posted by Sao Tomé 04:11

(Acotaçom XXII: Quem mora longe)

< Vai marchando no silêncio a ledízia que era tua.
Vem a tarde. Difuminam as horas nossas na memória, enquanto luito por reter as lembranças das madrugadas.
Por dizé-lo dalgum jeito, som os dias melhores quando andas tu polo meio.
(Eu nom sei bem por quê
so sinto na vida o que vem de você.)

Sonho meu, sonho meu,
vai buscar quem mora longe, sonho meu
no meu céu a estrela guia se perdeu
a madrugada fria
so me traz melancolia, sonho meu. >

posted by Sao Tomé 04:09

Domingo, Abril 11

Santo Nojo

Volto a Compostela. Mais umha vez, demostra-se que dous dias som tempo de mais para estar na casa com a família. Coma em tantas ocasões, volto cumha sensaçom de náusea, de cansaço e de fastio.
Durante muito tempo o retorno cada domingo com esta sensaçom levava-me à casa de Íria, onde a anfitriona por excelência obsequiava cum Sheridans, um Offley ou o alcol de qualidade que houver no momento.
Hoje de novo volto, cheio de nojo (lembro que, quando era mais novo tinha periodicamente esta sensaçom). Pergunto-me ainda pola causa. A falta de costume pola convivência. O confronto com a decrepitude crescente de Hermínia, a doidez do meu pai, os caminhos sem saida da Dora. Ou o encontro com muitos eu anteriores, e com os meus cimentos que na forma de BDs, de livros e de joguetes estám ai a me agardar.

Esta manhá merquei por fim Pílulas Azuis. Imagino que a intençom nom era mais que o rachar um bocado com este olhar duro e com o nojo que me acompanha, e conseguim se acaso ponher-me um bocado mais sensível.
Acho que nesta altura, apenas há umha ou duas raparigas que saibam como me tirar disto ou que poidam faze-lo mesmo sem saber.
Apenas um par de jeitos de me libertar antes de que caia a noite.
Mentres, consolo-me co Rescue Me de Fontela Bass e algumha outra jóia que me rescatárom desde a rede.
Coa conversa de Julianne, reecontrada logo de anos.
E com saber que alguém desde o Além Minho veu, por fim, ver Trapobana.

posted by Sao Tomé 05:10

Êxitos do ontem, hoje

Com Ordinary World de Duran Duran e Carnival de The Cardigans, tenho quase rematada a operaçom de rescate musical que comecei há umhas semanas coma monumento sonoro dumha época da minha vida.
Era cara os quince anos, acho que no outono, e chovia. E eu ia cara um enterro com o meu pai. Mas nom era só isso.
Em geral forom uns meses nos que, dum jeito altamente consciente, vivia numha estranha saudade ordenada. Lembro nidiamente a sensaçom de voltar dalgumha breve excursom. A sensaçom de olhar a luz no quarto, e o deitar-se a escrever na cama, e um jeito de olhar as cousas diferente ao que tivera antes.
E estavam por alô estas canções, e Love Song for a Vampire, e a versom de Ruby Tuesday de Rod Stewart, e Belleza Pasajera de Tam Tam Go! e, estranhamente o Jealous Guy de Lennon. E boa parte delas sonavam juntas enquanto seguiamos o cortejo fúnevre cara a Vigo.
Tinha pendente fazer esta colheita de temas dispersos. Afinal foi Maria e a sua boa vontade (para além da sua conexom) a que mos trouxo.
Nom, ela tampouco entende o que é que tenhem algumhas destas canções de particular. Obrigado de qualquer jeito.

posted by Sao Tomé 04:59

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Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá... Álvaro Cunqueiro "Si o vello Sinbad volvese ás illas"

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