Sábado, Abril 10
Meio por fora e de vagar
Dous feriados seguidos.
É difícil sobreviver com o ánimo inteiro a estas velhas ruas dessertas, aos passeios sem sentido, à cidade morta.
Ficam as conversas, os reencontros, a luz solar atrapados nesta sensaçom peganhenta.
E, sem embargo, ficam sintomas de recuperaçom físsica e psíquica neste tempo vagarosso, nesta calma espessa, neste estar meio-por-fora do mundo no que, de qualquer jeito, continuo a te agardar.
posted by Sao Tomé 02:27
Tardes novas
(8-IV)
A mudança de estaçom consolida-se com o dia. O sentir que a tarde foi estranhamente agradável trae-me à mente umha reflexom de quando começava o último outono.
Som os pequenos detalhes da estaçom os que marcam o jeito no que nos confrontamos com determinados aspectos da vida. Deste jeito, hoje o solpor veu tarde e estivemos no sofá. E eram outros os passaros de fora. E era outro o frio ou o calor, e a luz, a luz que nos guiou no nosso passeio. E o arrecendo na rua, onde ainda se mestura a madeira queimada das últimas lareiras coas flores novas.
A música velha também ajuda, e assim é que foi a tarde nova, e estranha, e boa, mas sempre cum gosto saudosso e normal: há um ano que muitas destas pequenas cousas nom estavam cá.
E ainda hemos tardar em nos afazer às diferentes novas sensações que venhem na primavera para tantas cousas. Afaremo-nos o justo para nos surpreender ante os sons de fundo, os olores, as sensações táctis do verao.
posted by Sao Tomé 02:24
Quarta-feira, Abril 7
E as flores
AND THE FLOWERS BLOOM LIKE
MADNESS IN THE SPRING
Aqualung - Jethro Tull
(Tal e como Íria reclamava, colo cá esta cita -já da sua propriedade- que ano a ano lhe envio por SMS nalgum intre da primavera. E que é totalmente certa, por sorte ou por desgraça).
posted by Sao Tomé 19:09
Terça-feira, Abril 6
Mantra de teimosía VI
Quando se me enche a cabeça de passaros que tenhem voz de rapariga, seja por bem ou seja por mal, descobro-me assubiando o começo desta cançom. É um acto reflexo, do que sou consciente a miudo quando já levo um bom anaco a caminhar.
Ontem ia pola altura da Alameda quando descubri que estava cá de novo.
posted by Sao Tomé 20:38
( Acotaçom XXI: A lua faz medrar as cheminés )
< Volto com Carlos e Belém polas Hortas. Olho para o paço de Raxoi e decato-me por vez primeira da imensa cheminé que há no telhado do edifício.
- Nunca a vira -comento.
- Pois seguro que está ai desde sempre -sinala Carlos
- Nom, de fixo que a Lua a fez medrar
- A lua fai medrar as cheminés, mais um efeito para a tua lista
E mais, nom seriam lindos esses bosques de cheminés a medrar baixo a lua? >
posted by Sao Tomé 20:13
(Acotaçom XX: Inauguro a primavera)
< Em tendo visto ontem, pola primeira vez no ano, como umha raiola de sol entrava pola fiestra Norte da minha casa e dava no sofá na altura das sete da tarde.
Em sabendo que é esse signo inequívoco de som as tardes mais longas e os solpores mais demorados.
Em tendo continuado Cléo a sua floraçom a bom ritmo, e Meno o seu crescimento acelerado.
Em conhecendo que isso supom tardes de conversa no sofá, e tempos de escuitar Cesárea e Caetano, e Fanfare Ciocarlia e outros a grande volume e com a fiestra aberta.
Sentido-me mais ligeiro do habitual.
Declaro inaugurada oficialmente a primavera em Trapobana.
E para que assim conste, assino, na susodita Ilha, a seis de abril de 2004.
São Tomé
Que aproveite e que seja boa. >
posted by Sao Tomé 19:59
Segunda-feira, Abril 5
Noite em Itapoã
Acontece-me em ocassões que, ao baixar cara o Sul, perdo o Norte. De jeito literal, o meu sentido da orientaçom falha, e deste jeito passei dous dias a ver como se punha umha Lua imensa e já cheia às seis da manhá por onde eu pensava que devia saír.
Para além da Lua, o caminho veu acompanhado de fenómenos meteorológicos. Se na ida viamos um duplo arco da velha mesmo a carom da autoestrada, na volta assistim desde o combóio e por primeira vez na minha vida, à visom dum Arco da Velha circular arredor do sol (dizem cá que isso nom é possível, mas eu vim). Afinal semelha que forom bons augurios, que a dessorientaçom foi possitiva.
A viagem correu óptima, e se já estaba eu contente, aínda apareceu a Margarida para me oferescer um sonho (ou dous), dúas fabulosas noites em Itapoã, algumha nova cançom e a reconfortante sensaçom de que fica gente com a que falar.
Beijos para tão linda e extraordinária menina.
posted by Sao Tomé 21:20
Grándola Nova (Da propriedade dos lugares II)
Portugal era teu.
Esta fim de semana, na minha vissita para o Além Minho decatava-me de como a maior parte das minhas experiências adultas com o país eram viagens contigo ou para ver-te.
Deste jeito possuias Coimbra, Lisboa, Porto, Víana, os combóios e as estações, os parques e os quartos dos hoteis que sempre me remitiam a aqueles que compartimos.
Ficavam fóra de ti anacos pequenos. As casas de Granja e o Casino de Espinho, que sempre estám a agardar, respeitivamente, pola olhada e pola sorte de Íria (lembro-lho cum SMS cada vez que o comboio passa por la). Umhas horas em Braga com Sinho. Umha área de descanso de autoestrada de Laura.
O resto era teu ou de estar a pensar em ti, e nem era mau. Mas tinhas um jeito de exclussividade com o lugar.
Nestes dias de descoberta, de amizades, de festas e de pouco durmir, figem umha Grándola Nova coma aquela que fundara o Dario em 'O cervo na torre': umha ilha e cidade capital dumha nova naçom. Agora, e embora mantenho com carinho as lembranças tuas completas, Portugal é mais meu. É máis próprio o combóio no que durmim o caminho de volta, som mais próprias as casas que vim sem ti.
Voltei do Além Minho por terras libertadas.
Também é certo que para te ver de novo em Compostela.
Também é certo que para che dar apertas.
posted by Sao Tomé 19:36
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Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro
"Si o vello Sinbad volvese ás illas"
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