Domingo, Fevereiro 29
Crossroads in the night
Vai indo a cousa aos poucos. A tristura, como tudo, também apoussenta. Quiçais levo melhor o catarro. Quiçais vim gente pouco conhecida que gosto de ver, sempre tam amáveis. Quiçais me resta um bocado de fê nalgum movimento social.
De qualquer jeito as beleças desde ontem reduzem-se às que jurdírom das Cidades Invissíveisde Calvino, que é um desses livros aos que sempre retorno em tempos de crisse.
Decatei-me na noite de ontem como dependo de saír para me sentir bem.
Quiçais porque nos últimos tempos, coma tantas outras vezes, a minha vida transformou-se num cruze de caminhos, num lugar no que confluem os problemas de muita gente, várias vissitas, várias obrigas sociais...
E afinal preciso ter algumha noite na que tomar eu mesmo a decissões, sair com quem goste, falar de trapalhadas e inventar canções, dançar e me definir na dança, levar algum tipo de iniciativa e que algumha rapariga me sorria.
Nom é que precise muito mais, é certo. Mas quando faltam essas pequenas cousas, e se me junta a falta com a tristura que sempre traem os catarros, afundo-me.
Quiçais precise achar novos espaços de liberdade. Colher ainda mais as rédeas.
Continuamos no caminho. Melhorando.
E nom deixo de estar canso. (Sim, onde é que ficas?)
posted by Sao Tomé 01:29
E as gaivotas
(28/2 noite)
'Jamás llegará nadie a este lugar
Jamás llegará nadie a este lugar
y las gaviotas me darán tristeza'
(De novo Colinas.)
E nom som as gaivotas, mas o frio, este certo catarro, a consciência de dessastres de mais e a ausência de gente com a que estar neste inevitável estado vegetativo. E saber que a noite nom dará de sim porque o corpo nom dá de sim.
Fico sem esperanças para o que resta do dia. A saude minada mina-me a moral. Fago por tirar de enriba a cançom de João Gilberto que me vem acompanhando todo o dia, e escuito um seu concerto ('eu nom sei bem por quê/só sinto na vida o que vem de você').
Agardo contra toda lógica ainda a chamada ou o encontro idóneo para curar a tarde (e, já postos a agardar, curar também o catarro). Agardo pola aperta e mais polo licor café da noite.
Mas vai frio. Frio. E estou tam canso.
(Onde ficas?)
posted by Sao Tomé 01:26
Sexta-feira, Fevereiro 27
Águaneve
Co naris levemente congestionada, o frio habitual, o sono já também habitual, o corpo que se dá a conhecer com estas dores pequenas e a incrível quantidade de gente com mágoas arredor, águaneve é a palavra que se quere impor para definir o dia.
Associada a ela, como nom, vem o licor café, como palavra contraposta com a que gostaria definir a noite.Conversa e um bico.
E fóra mágoas.
Como apreendim que diziam ao chinesses, naquel estupendo videojogo: "Só existe umha verdade no mundo: Isto, também, passará".
Ánimo para tod@s.
posted by Sao Tomé 21:09
Quinta-feira, Fevereiro 26
Meteropatia II: Nordés
Nos últimos tempos estou a me convencer de que, a efeitos de comportamento humano, afecta mais a força e a continuidade do vento do que a sua origem. Se até o de agora temía un vento do Sul, estas ultimas semanas de Norte e de Nordés estám-me a levar a ser precavido co vento em geral.
De qualquer jeito, os efeitos nocivos do Nordés som bem conhecidos no país, especialmente pola zona da Marinha, (bem o sabe o Luís).
Seja o que for, nota-se bem.
Anda a gente agressiva, deprimida, ralhada ou hipersensível. As conversas devenhem em discussões cumha especial facilidade, há ataques de ansiedade, acho de menos algumha rapariga nova com a que falar...
Mais umha vez vejo como continuo mais ou menos em bom estado, e como o que me altera som os problemas do meu arredor.
O frio fai melha, de todos os jeitos. Estou canso, durmo mal, o nariz pinga. O nosso corpo converte-se numha fonte de moléstias em geral, e dessaparece baixo as capas de roupa.
Estou canso.
E reconheço que sim tenho algumha tristura própria nos últimos días. Mais umha vez, perdas de fe, constataçom de que há distancias que medram, alegrias que pecham.
Nom. tem mal. Nem remédio.
É-che o meu próprio Nordés.
posted by Sao Tomé 19:57
Quarta-feira, Fevereiro 25
(Acotaçom IX: Sonho)
< Sonho que baixo pola rua das Hortas cum menino no colo. Nom terá mais de dous anos, e olha-me com muita curiossidade e bom humor. À direita nom há casas, senom um outeiro com vides e algum muro de pedra pequeno dos que gosto tanto. Está a ser pôr o sol detrás de tudo isso. Eu olho para essa paisagem achegada e digo-lhe ao pequeno: "Olha. Vês?, é o mundo. Bom, só um anaquinho, pero o total é também assim de fermoso. E mesmo mais. Pero muito mais grande". O rapaz olha-me e olha tudo aquilo.>
posted by Sao Tomé 20:42
Viagem II: Profanaçom de Ézaro
Olho com Belém esse auténtico fiordo onde estám ancoradas pequenas barcas. Vai sol. Um monte de pedra pura chega até o mesmo mar. É um dos lugares mais fermosos que tenho visto. Mas. É difícil de explicar.
O tubos violam o monte. Aerogeradores. Edifícios horríveis incrustam-se na pedra. Torres de alta tensom. Material de construcçom por toda a parte. Ruínas. Um encoro. Um cartaz oxidado advirte do perigo de cheias incontroladas. Busco o lugar onde, duas horas cada semana, desemboca o rio Jalhas numha fervença, caso único em Europa. É difícil de localizar, só há um fio de água. (Fraga inaugurou essa fervença que agora nom está.)
Subimos ao mirador. Umha depuradora de augas acompanha o som dos generadores, da electricidade polos cabos, das turbinas.
Enfronte, o incrível monte Pindo. Detrás as aspas dum dos muinhos de vento gigantes (mire vuesa merced, que no son molinos, que son gigantes) ameaçam-nos por tras dum cúmio. Semelha que o monte nos dá as costas e pola outra banda tem aparafussada umha hélice. Abaixo, um bulldozer trabalha dentro do velho edifício da central. Umha zona de guerra.
Enfronte o Pindo. Um lugar no que é difícil pensar na presença do homem.
Semelha que se tivessem esforçado por deixar clara o pior da nossa presença todo arredor.
Descobro mais umha vez que som sensível à beleça magoada dos lugares. Que som quem do assombro e da indignaçom.
posted by Sao Tomé 19:34
Terça-feira, Fevereiro 24
Muita Íria
Quando lhe digo a Íria que também aparece no post sobre o Entroido, queixa-se agradescida. ¿Semelha mais o meu blog que o teu, vai parecer que estamos liados ou algo assim¿.
Pensei que nom saia tanto, devo reconhecê-lo. De facto quando botei a andar isto preocupava-me mais a possível saturaçom de Maria nos posts.
Quê lhe imos fazer, semelha que polo de agora tocou-lhe mais a Íria levar texto. Em boa medida pola primavera e semelhantes. Em boa medida porque nos últimos tempos nom vejo tanto a Maria.
De qualquer jeito, advirto aos leitores que é melhor que se vaiam afazendo a estas duas. Polo de agora som as que em geral mais me ajudam, consciente ou inconscientemente, a ponher os óculos de Trapobana para ver a vida. As que me traem ou me contam ou construem comigo anacos pequenos coma os que ficam nesta ilha.
Mulheres e metro
Ao abeiro disto, penso também na abundáncia de mulheres que tenho em Trapobana. Mas nom podia ser doutro jeito. Há já anos que de quando em quando me surprendo (num bar, tomando o sol, numha excursom) na companha exclussiva de amigas. Tam afeito estou que nom adoito reparar em que som a miudo o único homem da juntança.
Também é cousa de ter longe desde há tempo alguns bons amigos velhos. De ter perdido algum contacto masculino. De ser menos de Trapobana a relaçom com muitos deles (e sem embargo tam necessária).
Ultimamente já me estivem a perguntar (está na moda) se nom estarei a virar metrossexual, sobretudo desde que me deu por mercar roupa coma umha pessoa normal e nom andar feito um Cristo (algum dia descubrirei por quê).
Quando jorde a pergunta olho a minha barriga. As peluxas que organizam carrreiras e manifestações pola casa. O meu escasso interesse nas tendências.
E rio um bocado. Nom tenho perigo.
posted by Sao Tomé 20:23
Segunda-feira, Fevereiro 23
(Acotaçom VIII: Estaçom)
< Domingo na estaçom de trem de Ponte Vedra. Marcha o dia, estou canso e levo gafas. Tardo entom em reconhecer à rapaza com eterna cara de pequena tristura que está quase ao meu carom. É F. Conheci-na brevemente num pub há já dez dias.
Iniciamos conversa mentres agardamos. Amável e acolhedora lembra, como nom, anacos de anteriores encontros que eu nom som quem de lembrar.
Exprimimos os dous ou três tópicos possíveis. Ocupações, origens, anécdotas comuns.
A conversa enfia bem, pero chega o comboio e subimos em diferentes vagões, eu de volta com os meus companheiros de viagem.
Fico com curiossidade por como irá a parola a vindeira vez que coincidamos, que será já a quarta.
Até o de agora acho que nom superamos os quince minutos de debate em ningum intre.
De qualquer jeito fico pensando.
Nom estou afeito a lembrar gente que conheço pola noite.
Nem a que me lembrem.
Nem a que continue o contacto para além do saudo.
Curioso.
Pergunto-me polo mistério que se agocha detrás desse olhar triste.>
posted by Sao Tomé 21:43
Limpador de cheminés
Finalmente houvo disfarce. Sábado noite, pessia a todas as complicações que adquiriu a vida ultimamente, fum Dick Van Dyke no seu papel de limpador de cheminés de Mary Poppins. Ao meu carom, Íria fazia umha Mary Poppins estupenda, tam linda que dava ganha de nom a conhecer para tentar namorá-la. Onda nós, Tino era a nuvem da que baixa Mary ao começo do filme. Umha récua bem curiosa.
A noite foi breve, de qualquer jeito. Nom se pode andar a todo todos os dias. Em havendo saude, repetiremos o show, a ver se desta volta com letras e coreografias já aprendidas...
posted by Sao Tomé 20:17
Sexta-feira, Fevereiro 20
Para nom se perder
Acabo de levar um susto. Dessaparecera da rede a imagem que ilustrava a minha fília polos quimonos.
Para evitar futuros sustos, colo cá a fabulossa fotografia de Ken Danby (e porque podo e quero e me dá a gana)

posted by Sao Tomé 21:13
Um lugar onde durmir
Tenho sono. Foi boa ontem, reconheço-o. Veu Rapo, e figemos por fim umha pequena juntança co Sérgio a base de guitarra, canha de ervas e licor café.
Novas no repertório: Rapo trouxo de Itália um feixe de temas de Caetano. Coma este (que polo visto escreveu em realidade Chico Buarque), especialmente ajeitado para o dia de hoje, e que se cantou várias vezes ao longo da noite.
Nom faltárom tampouco os clássicos de Sílvio, e de facto saimos da casa depois de entoar 'Como esperando abril', como nom podia ser menos.
Havia tempo que nom juntávamos as tres vozes, e que nom vinha delas essas sensaçom tam de fogar.
No caminho cara os bares, acompanhou-nos, como tantas outras noites de alcol, João Afonso.
Ainda lhe bebimos e lhe dançamos. Muito samba, pouco amor.
Agora é de manhá. E tenho muito sono.
O dia apresenta-se coma um lugar onde durmir.
Até que volte a noite.
posted by Sao Tomé 20:35
Quinta-feira, Fevereiro 19
(Esta fim de semana fum de viagem com Belém. Deu para muito. Vai cá um bocado.)
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Viagem: Encoro da Fervença
Caminhamos cumha mulher maior por um caminho enlamado. Chegamos quase à ponta da península que está no meio do encoro. Olhamos o mar morto a esquerda e direita. Ao fondo até se poden albiscar os telhados das casas assolagadas. O caminho chega até a beira, e continua um bocado para além da água. Neste auténtico pantano umha árbore morta fica so no meio da branha, fazendo a perfeita imagem da dessolaçom.
Belém e mais eu pensamos na estranha vida daquelas mulheres que atopamos lá. Em três casas, coas vacas na corte. Espantando os corvos e arranjando o espantalho, semelha o destino das protagonistas dalgum romance de García Márquez depois de ter-se fechado o livro.
No caminho de retorno, pensamos ainda em se agora se lhe começarám a apôr aldeas assolagadas a todos os encoros, embora nom as tenham. Do mesmo jeito que durante séculos em toda masa de água estranha o nosso povo veu cidades afundidas que humanizavam dalgum jeito aquela estranheça doce.
Penso entom na diferença: as cidades assulagadas de qualquer lagoa tenhem algum tipo de vida. Tangem as campás, voltam à superfície umhas horas cada certo tempo. Os habitantes seguem a fazer vida dalgum jeito. As aldeas que ficárom baixo os encoros ficárom lá mortas e baleiras. E todo o mundo sabe.
Olhando o encoro desde a barragem mesma, vemos como a água está queda de mais. Como nom pode haver vida nesses fondos. Nengumha sensaçom agradável destas masas de água de mentira, com povos reais dentro.
Quiçais nos falte práctica, pensamos, quiçais seja a nossa falta de práctica com os lagos.
Mas nom o creio. Reafirmo o meu pouco gosto geral polos encoros.
posted by Sao Tomé 21:49
(Acotaçom VII: Macela)
Vai sol, mas nom devemos esquecer que ainda é inverno.
Assubio Caetano.
Adianta-me umha rapariga.
Arrecende a macela.
Sigo a caminhar detrás dela.
Descobro que o arrecendo nom vem da cafetaria.>
posted by Sao Tomé 20:35
Quarta-feira, Fevereiro 18
Translations
Sim, eu também fui ver Lost in Traslation. Como nom podia ser doutro jeito, levárom-me, é sabida a minha pouca iniciativa para meter-me no cinema.
Gostei do filme. Embora nom goste de Tokio. Embora fosse tudo muito cool para mim. Pessia a todas as distáncias que poida ter com as personagens. Sentim-me seriamente identificado com o fulaninho. Nom pola sua situaçom de fracasso vital. Mas sim pola história com a rapariga (bem linda, dito seja de passo).
Lembrou-me o filme umha quantas situações familiares.Noites e relações semelhantes às que conta a Cóppola que eu já tenho vivido. E que em certo jeito se me tenhem transformado num estilo de fazer as cousas. Olhadas e gestualidades intensas nas que nom acontece nada. Correspondências incompletas de sentimentos incompletos.
Estou-me especializando, sim.
Ao abeiro disto lembro, coma sempre a Benedetti:
sencillamente como un modesto mago
de rojo circo de domingo
o de feria
tomo los naipes del amor
los barajo con parsimonia
y en las narices del viejo público
que es como hacerlo en mis narices
mágicamente los transformo
en nuevos naipes de amistad
Embora acho que vai tocando umha mudança nesta dinámica, nom deixo de cantar que aunque sin rey mago, sigo en pie.
posted by Sao Tomé 19:27
Terça-feira, Fevereiro 17
Fetichismos de entroido
Para além de ter o blog caido vai já para umha semana, a vida ainda deu para bastantes cousas, é certo.
Mentres rematam de pousar para tomar forma escrita, situo cá umha dessas pequenas listas que um se descobre que tem embora nunca fosse consciente.
O domingo ia falando com Íria sobre os disfarçes que poderiamos arranjar para este entroido. E, listando as suas ideias, a menina foi listando quase a totalidade dos meus fetichismos (nom muito agudos, certamente) enquanto a vestiário feminino.
Começou polo quimono ou a camissola chinesa coa que se pensava vestir de oriental, para seguir cum corsé com o que pretendia ir de bailarina de can-can. Depois ainda chegou a fasse dos corpinhos, dos vestidos estilo século XVIII e, para rematar, as camisolas de látex (que som umha adquissiçom recente para a minha lista).
Por se ficassem muitas cousas fóra, falando com Carmem contou-me como o ano passado foi de gangster com tirantes, que coincidimos em afirmar som um grande ponto para umha mulher, e ainda lembrou as possibilidades de vestir-se vaporossamente no estilo Scherezade, que tampouco está mal.
Som curiosas estas preferências de vestimenta minhas para as mulheres.Ficam, desde logo alguns fetichismos fóra da lista (mais difíceis de atopar pola rua, certamente), onda alguns verdadeiramente comuns (saias longas, pes descalços, calugas ou ombreiros com tiras de sostém, por exemplo). Mas ficárom fóra de conversa e, polo mesmo, ficam gardados até outras ocasões, agardemos que mesmo mais felizes ;-)
posted by Sao Tomé 20:39
Quinta-feira, Fevereiro 12
Centra-te pavo!!!
Por petiçom, ponho cá hoje esta expressom, também umha espécie de mantra que nasceu há já anos lá em Ponte Vedra no transcorrer dumha ceia na que alguém saia tambaleante e a quem Carlinhos lhe berrou a tal frase, que se repetiria (dada a condiçom tambaleante geral) ao longo de toda a noite.
Desde aquela ficou instituida coma umha frase feita que aplicamos a diferentes situações, nem sempre etílicas.
A última vez que a empreguei foi ainda há dous dias, cum sentido bem mais existencial do que aquela primeira vez.
E semelha que fixo algum efeito.
Fica ai pois para emprego e lembrança de descentrados.
Que haja sorte na busca do eixo.
posted by Sao Tomé 19:06
Quarta-feira, Fevereiro 11
(Acotaçom VI: Da água e os cristais)
< Numha estaçom, cum sol digno de primavera, olho ensimismado e cheio de sono como lavam um autocarro.
A água escorre polos cristais e penso que gostava de estar dentro e vê-la caer, coma umha chuva mesta, como quando neno agardava ir no carro do meu tio ao túnel de lavado.
Quiçais ainda fique assombrado pola mágia que fai que a água escorra do outro lado do vidro sem nos chegar a molhar.
Quiçais essa película me faga sentir dalgum jeito embaixo dum manto (dum mar) dentro do que ficam as couas conhecidas.
Mentres chove fóra. >
posted by Sao Tomé 21:19
Terça-feira, Fevereiro 10
Mantras de teimosia II
Um dos mais recorrentes. Sem saber por quê, a miudo vem-me à cabeça quando sinto que dalgum jeito se me pom a prova algum estranho código ético. Tampouco falta nestes dias revoltos que tenho.
Soy ciudadano del amor
llevo dogal de belleza
entre la hombrera y la cabeza
entre rodilla y cinturón...
(la vida nueva es
como un verso al revés)
posted by Sao Tomé 20:46
Lello e Irmão
Cris odeia-me. Tem boas razões. A quinta passada, quando me dixo que ia ao Porto esquezi falar-lhe do melhor lugar que se pode visitar na cidade.
Foi há umha cheia de anos. Fóramos lá um bom grupo. Era, se mal nom lembro domingo à tarde e estávamos a buscar rolo fotográfico. Fui eu o que vim de longe aquela fachada neogótica, destacando branca entre os edifícios velhos.
Achegamo-nos, e a nossa surpressa foi atopar dentro a livraria. Aberta.
Entramos ">olhando tudo coma os nenos. A madeira gasta do chao, na que atopamos os pequenos raís sobre os que haviam correr carrinhos cargados de livros, a incrível vidreira do teito. A escaleira que nom se pode descrever. Os manuscritos da parede e o grande livro aberto onda a escaleira no que umha linda caligrafia lembrava a recente morte de Amália Rodrigues.
Maria dixo: 'É a igreja mais bonita do mundo'.
E nom lhe faltava razom.
O éxtasse durou um bom anaco. Os livros de fotografia (lembro especialmente aquel de antigas fotografias eróticas). As BDs de Calvin&Hobbes no chao. A descoberta da utilidade dos cartos (era Caneiro o que dizia que os cartos servem para mercar livros?). Tirei algumhas fotografias. Subimos a escaleira e descobrimos as cadeiras que, onda os andeis, agardavam gente que lesse. E a pequena barra e o café e as garrafas de porto prestas para poder sentar lá no paradisso e beber com os amigos.
Umha dependenta, morena, cabelo liso polo ombreiro, totalmente vestida de preto cumha saia longa. Como se pode imaginar, inesquezível.
Rematamos marchando.
Eu só puidem mercar um pequeno livro sobre a própria livraria, na que se explicava a história daquel assombrosso edifício.
E um quaderno de postais de Alphonse Muchá co que ainda hoje vou agasalhando às mulheres que se cruzam na minha vida deixando pegadas de importáncia.
Nom voltei ainda lá.
Mas podo dizer que o paradisso existe, na forma daquela livraria de Porto, a igreja mais bonita do mundo.
posted by Sao Tomé 04:44
Segunda-feira, Fevereiro 9
(Acotaçom V: Cançom para Cléo)
< Ergo-me cedo, cheio de sono. O vento do Norte permite-nos continuar co sol.
A Cléo assoma-lhe um gromo (um botão) já por cima das folhas.
Achego-me e canto-lhe quedo:
'Mar sob o ceu, cidade na luz
mundo meu canção que eu compus...'
Antes de você chegar
era tudo saudade.
Já se sabe >
posted by Sao Tomé 19:31
Mantras de teimosia I
Confeso: Eu também tenho os meus mantras (imaxino que coma todos).
Quando a Lua, ou o Vento ou em geral este mundo que nom deixo de amar e de temer em grandes medidas dam-me cartas cruzadas, venhem-me de jeito habitual à cabeça umha pequena série de cançons, de versos, de citas que me reafirmam em mim mesmo dum jeito curioso.
Som velhas palavras que me forom poussando dentro e que jordem quase automáticamente quando dalgum jeito me acode à boca esse sabor metálico, quando tengo los miembros tristes, quando fico assustado. Pequenas tácticas de supervivência.
Este foi um dos últimos. Reapareceu ontem mesmo, desde Sepulcro en Tarquinia.
Y yo sólo deseo salvar mi claridad
sonreir a la luz de cada nuevo día
mostrar mi firme horror a todo lo que muere...
Aqui me quedo en vuestra biblioteca...
Sueño con los serrallos azules de Estambul
Ainda é bom ter algumha Condesa de Waldstein que o acolhe a um de quando em vez na sua biblioteca ou no seu salom.
(O que nom se consola é porque nom quere)
posted by Sao Tomé 18:19
Sexta-feira, Fevereiro 6
É boa cousa ter um tigre
Com tanta primavera e tanta Lua nom tivem ocasom ainda de falar ainda do tema. Mais que nada a questom é dar esta ligaçom e agradezer publicamente a Bill Watterson que criasse a melhor banda desenhada (estrictu sensu) de todos os tempos.
Estes dias estranhos estivem a repasar velhas histórias destes dous, estupendas menzinhas para me reencontrar com o mundo um bocado antes de ir para a cama, agradecendo a existência dos meus Hobbes particulares, e mesmo dalgum Calvin que tenho por ai.
Decato-me mais umha vez de como estám de fondamente incorporadas estas histórias à minha vida. Valam dous exemplos
Mortos vivos
'Os mortos-vivos nom precisam de resolver problemas'. A mítica frase de Calvin quando dezide transformar-se em zombie para evitar os trabalhos para a casa foi durante umha boa temporada um mantra para os exames. Ainda que, em olhando-o bem, é aplicável a todos os aspectos do vivo.
Longos bigodes
(- O que é que te atrai dumha mulher, Hobbes?
- Bem, eu sempre preferi as ruivas... Com olhos verdes, gosto de olhos verdes....
e bigodes! Longos bigodes! )
Ainda a miudo engado a apostilha 'bigodes, longos bigodes' quando descrevo algumha rapariga da que gosto ou algum protótipo de mulher ideal.
Só quando falo com entendidos, é claro.
posted by Sao Tomé 19:45
Quinta-feira, Fevereiro 5
Candelória
Tem que vir Ana a me lembrar que o dous de fevereiro é a Candelória. A quem se lhe conte. Foi o ano passado, quando dese Vieiros reclamavam esta festividade coma alternativa nacional ao Sam Valentino, que me decatei da coincidência de datas coa 'festa de Jemanjá, presente no dois de fevereiro' que canta Caetano. Ainda tenho que investigar a relaçom entre a virgem e a deusa do Candomblé, mas nom deixo de gostar dessa ideia dum contínuo histórico de celebrações do dous de fevereiro desde o Courel até a Bahía de Todos os Santos -por terras libertadas, que dizia o Novoneira-.
posted by Sao Tomé 23:35
Veraninho de Sam Blas
Explicou-me ontem Carmem (que, como bem di ela mesma sabe de tudo), que esta primavera precoz é em realidade o Veraninho de Sam Blas, patrom dos males de gorja e santo da sua devoçom. E é sabido: por Sam Blas, a cegonha verás.
Aleda-me saber que é cousa já tradicional e que nom é mal do cámbio climático, como eu pensava...
Sam Blas. Acto I
Íria, especialista em primaveras, viste já quase como corresponde à futura estaçom e começa umha floraçom que há ser lamentavelmente breve por causas climatológicas. Agarda abril com bastante mais ánsia do que eu.
Sam Blas Acto II
Na minha cozinha, Cléo (Saintpaulia mini) começa também a amosar os gromos da sua primeira floraçom do ano. Ultimamente mantém umha meia récord de duas cada doze meses.
Sam Blas Acto III
Estendo umha camissola a secar ao sol. Também a primeira deste inverno.
Sam Blas (Entreacto)
No português do Sul, os gromos das flores som conhecidos coma 'botões'. E florescer di-se 'desabrochar'. Lembrou-mo Jorge Amado em 'O gato Malhado e a andorinha Sinhá',(conto que Belém me arrebatou das maos numha livraria de Coimbra). Nom se podem dizer melhor as cousas estas, nom é?
Sam Blas Acto IV
Abro as fiestras todas. Soam Cesária, Manolo Garcia, Tribalistas, Caetano e Chico César. Há que acompanhar o som deste vento que acarinha a pele.
Sam Blas Acto V
Viro a cabeça na rua, sem deixar de me assombrar ante a consabida beleça. Nom sei se tinha olhos verdes.
Sam Blas Acto VI (noite)
Volto à casa depois de tomar umha birra com Jocas e de falarmos de transplantes futuros. Calor com o chaquetom de pana. Descobro assombrado umha Lua quase cheia. (Velai os meus sonhos?). Ainda nom contava com ela. Coa Lua descobro essas nuvens (cirroestratos) tam próprias da primavera. Arrecende a erva segada ao passar por onda o Rosalia de Castro. E temo e agardo a Lua que virá já esta sexta.
posted by Sao Tomé 19:29
Quarta-feira, Fevereiro 4
(Acotaçom IV:SMS)
< Envio-lhe um SMS a Íria: "Nom sintes que já é um bocado primavera? Ánimo e beijos"
"Sim, é quase o único bom que tem este dia".
Cousas de autêntica primavera.>
posted by Sao Tomé 23:07
Como esperando abril
Aconteceu o milagre. O vento de sul está a nos traer desde onte a antecipada primavera que o cámbio climático já começa a fazer habitual a esta altura do ano.
Reconheço que nom podo evitar umha certa propensom a cantar. E já ontem pola rua havia fiestras abertas deixando escapar a música. Está também ai a inquedança que trae o bom tempo. As dificuldades para deixar de pensar em segundo quê temas. A necessidade eterna de olhar todo quando renasce tocado polo sol (céus, pedras, mulheres...).
Quase umha primavera real, essa temível época "cuando surgen las consabidas muchachas de ojos verdes..." já o dizia Benedetti.
E acô estou, agardando temerosso o novo abril. Desta volta, ademais dos meus inevitáveis aniversários (tristes ou patéticos segundo se mire), agardo que o mes me traia umha vissita longamente agardada.
E com mais temor ainda agardo as consabidas raparigas de olhos verdes que voltarám tomar ruas (e olhadas) em propriedade.
posted by Sao Tomé 22:45
Terça-feira, Fevereiro 3
Sonhos
Ultimamente nom importo em absoluto de contar os meus sonhos.
Estou descrente dos seus significados, ou quando menos do seu significado mais aparente. Nom acho que sonhar que namoro com alguém implica que goste desse alguém. Em último caso sinalará a minha ganha de namorar.
Cada vez penso mais que é puro capricho o que se agocha detrás dos elementos que jordem nos sonhos, as pessoas e os lugares, vejo-os coma resultados de combinações caóticas, curiosas e divertidas.
Nom deixo, sem embargo, de os escuitar.
E, de qualquer jeito, nom vou contar o sonho que tivem esta noite.
posted by Sao Tomé 19:33
Segunda-feira, Fevereiro 2
Domingo
Acho que nunca gostei de domingos. Nem sei como a Sílvio se lhe ocorreu lhes fazer umha cançom...
Embora nalgumhas temporadas mais ou menos longas tenham sido cenário de actividades bem agradáveis, nomeadamaente, as viagens nas tardes com a família, descobrendo novos recantos do país (por exemplo, o Paço de Oca), durante bastantes anos os domingos forom os dias de voltar a Compostela. O dia inteiro reduzia-se a: erguer-se tarde, jantar na casa e apanhar combóio ou autocarro, carregar a mochila pola cidade e reencontrar-se com algumha gente.
Ainda bom que de quando em vez algumha casa me acolhia cum copo de Sheridan's, Porto ou Vinho Verde para combatir o mal...
Em geral é um dia ajeitado para me atopar em situaçom de desacougo ou mesmo desse nojento fastio vital que me vem de quando em vez.
Ontem foi um domingo prototípico. Nojo, insatisfacçom vital e todas essas cousas juntas. Ainda bom que se vam criando rotinas salvadoras, cafés conhecidos e visitas já quase programadas para salvar o que se poida da equipagem.
Desse jeito o dia rematou dando-lhe um bocado de sentido à rotina depois de ver "Clerks" e dum par de partidas na casa de Tino e de Bibi, que sempre o fam sentir a um especialmente querido.
Isso sim, nem sequer ganhei.
posted by Sao Tomé 21:50
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Trapobana nom é que nom a haja, o que se passa é que é navegante, e hoje está cá e manhá acolá...
Álvaro Cunqueiro
"Si o vello Sinbad volvese ás illas"
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